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Combate à violência sexual contra crianças e adolescentes é desafio

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Combate à violência sexual contra crianças e adolescentes é desafio


Brasília sediou até esta quinta-feira (21) o III Congresso Brasileiro de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, realizado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). O debate reuniu especialistas, gestores e sociedade civil no debate de estratégias de proteção à infância e à adolescência.

O evento integra a campanha nacional “Faça Bonito”, principal mobilização do Maio Laranja que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes em 18 de maio, instituído pela Lei Federal 9.970/2000. A data é em memória da menina Araceli Cabrera Crespo, assassinada brutalmente aos 8 anos, após desaparecer na saída da escola no Espírito Santo, em 1973.

Para o secretário executivo da Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes, Lucas Lopes, a escola tem papel fundamental na prevenção a esse tipo de abuso contra a infância e, por isso, precisa de suporte da segurança pública e do conselho tutelar.

“A escola ainda é o equipamento público onde a gente consegue ter o maior ponto de contato entre o Estado brasileiro e as crianças e adolescentes. Então, investir na prevenção na escola é a nossa melhor aposta”, disse ele, em conversa com a Agência Brasil.

Veja os principais trechos da entrevista:


Brasília (DF), 19/05/2026 - O secretário-executivo da coalizão brasileira pelo fim da violência contra crianças e adolescentes, Lucas Lopes, durante entrevista para a Agência Brasil. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Brasília (DF), 19/05/2026 - O secretário-executivo da coalizão brasileira pelo fim da violência contra crianças e adolescentes, Lucas Lopes, durante entrevista para a Agência Brasil. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Lucas Lopes diz que a escola tem papel central no debate – Marcelo Camargo/Agência Brasil

Agência Brasil: Qual a orientação aos familiares para proteger suas crianças e identificar sinais de abuso?

Lucas Lopes: Comece olhando para a criança, ouvindo e nunca duvidando dela. Então, na relação pais e filhos, muitas vezes acontece que a narrativa da criança é colocada em xeque: “Ah, será que foi isso? Será que foi dessa forma?”. O estrago que isso vai ter será devastador.

Agência Brasil: Como os governos podem se organizar melhor para garantir o financiamento dessas políticas?

Lucas Lopes: Estamos discutindo a regulamentação da Política Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes e revisando o Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual. Tem uma previsibilidade no plano de como esses programas e ações vão ser financiados. Agora, isso tem sido construído fora da gramática da legislação orçamentária, sem o envolvimento efetivo, por exemplo, do Ministério do Planejamento e Orçamento. O que faz com que tenhamos um descompasso entre o que precisa ser feito – estabelecido pela política e o plano – e como isso vai ser financiado.

Agência Brasil: A maioria dos casos de abuso ocorre no ambiente familiar. Qual é o papel da escola e dos postos de saúde na identificação e denúncia dessas violências?

Lucas Lopes: A escola ainda é o equipamento público onde a gente consegue ter o maior ponto de contato entre o Estado brasileiro e as crianças e adolescentes. E isso é fundamental na agenda de prevenção para ampliar o repertório protetivo de crianças e adolescentes para que aprendam estratégias de autoproteção.

Diante de uma suspeita de violência, a escola tem pela Lei 13.431/2017, conhecida como Lei da Escuta Protegida, responsabilidade de acionar os órgãos competentes. Então, investir na prevenção na escola é a nossa melhor aposta.

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A escola tem essa responsabilidade, mas também no nível municipal, alguns desafios. Por isso, precisa do suporte da segurança pública e da participação ativa do conselho tutelar. Sinais de violência, se lidos isoladamente, podem levar a erros.

Agência Brasil: Por que o conceito de autoproteção é tão importante para o desenvolvimento da autonomia das crianças?

Lucas Lopes: A autoproteção é uma abordagem com evidências em nível global. Em outras palavras, falamos de educação sexual ou de educação autoprotetiva, que dão repertórios e são conteúdos que vão ajudar na identificação de sinais de violência. Crianças e adolescentes são sujeitos em desenvolvimento e que esperamos que tenham uma autonomia progressiva. A criança não tem esse repertório que o autor de violência tem. O autor ou a autora de violência sabe, exatamente, quais são as estratégias, as manobras que vai usar para alcançar o seu objetivo.

Agência Brasil: E quando o debate sobre a educação sexual é deslocado para o campo da moralidade ou da ideologia?

Lucas Lopes: Falamos de estratégias de relacionamento e de sociabilidade humana. Esse conteúdo é importante ao longo do nosso desenvolvimento. Ensinar as crianças sobre a sua sexualidade, sobre seu corpo e como esse se relaciona com os demais, é algo que é intrínseco à possibilidade de ser feliz. Não é um debate filosófico. É um debate sobre qualidade de vida.

Agência Brasil: Qual o balanço que o senhor faz da implementação do ECA Digital e do diálogo com as grandes empresas de tecnologia?

Lucas Lopes: O ECA Digital é uma lei que tem sido considerada, no contexto regional e até global, uma excelente referência. E foi construída com um olhar mais cauteloso em relação à capacidade de implementação, mas ainda é cedo para avaliar se, de fato, o Estado e as empresas vão conseguir cumprir todas as suas obrigações. Há uma longa jornada no enfrentamento à violência sexual no ambiente digital.

Agência Brasil: Dados apontam que mais de 13% das vítimas de violência sexual são meninos, mas o tema é pouco debatido. Que agenda precisa ser desenvolvida nessa questão da capacidade autoprotetiva dos adolescentes?

Lucas Lopes: Em geral, os meninos ficam invisibilizados quase sempre na agenda de violência por três razões. A primeira é o imaginário social de que os meninos são mais fortes, mais resistentes e de que essa violência geraria menos implicações do que a violência contra meninas.

Depois, existe a crença de responsáveis de que a exposição da violência cometida poderia gerar um constrangimento familiar, um processo que ampliaria o trauma. Mas, quando meninos são vítimas de violência sexual, os impactos quase sempre traumáticos para o seu desenvolvimento.

Em nível global, há evidências que associam programas focados em meninos à ampliação do fator de proteção, sobretudo, no começo de relacionamentos, héteros e homoafetivos, independente da orientação desses meninos.

Agência Brasil: Como conscientizar os profissionais de saúde de que esse atendimento à vítima de estupro é um direito e não uma pauta moral ou de religião? Recentemente, vimos decisões do Conselho Federal de Medicina (CFM) e de prefeituras que tentaram restringir o aborto legal após as 22 semanas de gestação.

Lucas Lopes: Categoricamente, isso é um equívoco. É importante dizer que o não cumprimento do direito da vítima de estupro de vulnerável tem implicações legais e responsabilização. Mas, um grupo de profissionais tem apresentado um alto grau de customização da lei. A indisciplina ao seu cumprimento é causada pelo imaginário, por uma crença ou religiosidade.

A lei de prevenção da revitimização de crianças condena essa exposição e essa patrulha, que são formas de vigilância moral, de costumes, tentando impedir um direito que já está assegurado, está positivado e não está sendo plenamente implementado, devido a essas indisciplinas. A queda da resolução 258 do Conanda tem relação com esse grupo que, também, quer dificultar os procedimentos e, portanto, favorecer essa abordagem equivocada e que descumpre a lei.

Agência Brasil: Sobre intersetorialidade, como ações de diferentes ministérios podem funcionar como fatores de proteção ao público infantojuvenil?

Lucas Lopes: Temos um desafio predominantemente no Norte brasileiro, que tem a ver com as rotas fluviais, onde há exploração sexual de crianças e adolescentes e outras formas de trabalho infantil.

O governo brasileiro tem uma discussão sobre como adaptar a estratégia do Projeto Mapear da Polícia Rodoviária Federal, que identificou os pontos vulneráveis de exploração sexual nas rodovias federais. Há um esforço para replicar a iniciativa para rotas fluviais. O que terá resultados de forte impacto nas áreas de garimpo, de desmatamento, das grandes obras e construção com grandes agrupamentos de homens. 

Agência Brasil: Na segunda-feira (18), a Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes assinou, de forma pioneira, um termo de cooperação técnica com a Justiça do Trabalho para prevenção ao trabalho infantil. A exploração sexual é entendida como uma das piores formas de trabalho infantil. Quais os ganhos desta aproximação com o Judiciário?

Lucas Lopes: Queremos levar a justiça do trabalho para mais próximo dos municípios, da rede de proteção e das escolas para o diálogo com educadores e com crianças e adolescentes. A Justiça precisa fazer parte do nosso trajeto, da nossa jornada, do nosso desenvolvimento e precisa fazer parte da cidadania do cidadão. Não só na judicialização. Então, deslocar a justiça do trabalho também para a agenda de prevenção é uma estratégia que temos apostado e a justiça topou o desafio.

Agência Brasil: O Brasil é pioneiro na adesão à Parceria Global pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes, em 2018. Qual é o balanço real do cumprimento dos compromissos assumidos?

Lucas Lopes: O Brasil participou da primeira Conferência Ministerial Global sobre o Fim da Violência contra Crianças, em Bogotá (Colômbia), em novembro de 2024. O Estado brasileiro assumiu oito compromissos públicos. A segunda conferência ocorrerá nas Filipinas, em novembro.

Observo que há uma vontade política e estatal do atual governo em avançar com essa agenda, mas há dificuldades de articulação interministerial para o monitoramento desses oito compromissos e para o cumprimento de cada um deles. E em termos da formulação de política com reflexos no plano plurianual, na agenda transversal, nós avançamos muito pouco.

Nós conseguimos crescer do ponto de vista do arcabouço normativo e orientação técnica, mas ainda há uma dificuldade muito grande no diálogo e na pactuação política com as secretarias dos estados que teriam mais responsabilidade dessa agenda que consiga ter um modelo de implementação em nível municipal, que é onde a criança ou adolescente estão.

A coalizão

A Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes é uma articulação nacional da sociedade civil formada por organizações, fóruns e redes dedicados à prevenção e ao enfrentamento das violências contra crianças e adolescentes no Brasil.

O trabalho coletivo tem o objetivo de potencializar ações nesta temática. O relatório Monitoramento de Estratégias pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes já está disponível on-line aqui.

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