O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) têm pregado cautela e estimulado uma conciliação entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência.
Parlamentares afirmam que, com Jair Bolsonaro (PL) preso, o presidente do PL vê a ex-primeira-dama como um dos principais ativos políticos do partido e sabe que é preciso administrar bem a crise provocada pelas duras críticas feitas por ela ao enteado.
O PL também precisa de Michelle para atingir o plano de fazer a maior bancada da Câmara dos Deputados nas eleições deste ano —o que daria à sigla, consequentemente, a maior fatia dos fundos partidário e eleitoral.
Aliados de Michelle dizem que a campanha de Flávio e o partido precisam reconhecer o trabalho feito à frente do PL Mulher e abrir espaço para que ela ajude a montar as chapas estaduais.
A ex-primeira-dama filiou mulheres, puxou votos para prefeitos e vereadores nas eleições de 2024 e estruturou os diretórios do PL Mulher nas 27 unidades da federação. Às vésperas das eleições gerais, porém, Michelle tem visto suas candidatas serem rifadas, segundo seus aliados.
O caso que mais tem incomodado a ex-primeira-dama é o da vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL). Michelle quer que Priscila seja candidata ao Senado, mas o presidente do PL no Ceará, deputado federal André Fernandes, diz que a vaga será do pai dele, Alcides Fernandes (PL).
Nos vídeos, Michelle afirma que, pela lógica da cota que reserva 30% do fundo eleitoral para candidaturas femininas, o PL Mulher teria o direito de indicar 17 candidatas para as 54 vagas a senador que estarão em disputa neste ano.
Apesar disso, indicou três: Priscila no Ceará, a deputada federal Bia Kicis no Distrito Federal e a deputada federal Caroline De Toni em Santa Catarina. “Três vagas de 17 que poderíamos ter, e tem sido uma batalha diária para manter essas três. Isso é muito desgastante”, disse.
Valdemar estava nos Estados Unidos acompanhando a Copa do Mundo quando Michelle publicou os vídeos em que diz que Flávio a maltratou, humilhou e deixou subentendido que não queria a participação dela na campanha presidencial dele.
O presidente do PL antecipou a volta ao Brasil para, segundo ele, conversar pessoalmente com os dois antes de tomar qualquer decisão. Questionado pela reportagem sobre a briga entre Flávio e Michelle, disse ser preciso “ter calma” neste momento.
Depois dos vídeos de Michelle, Valdemar divulgou uma nota em que elogia indiretamente a dupla, diz que divergências fazem parte de ambientes plurais e afirma admirar “a coragem dos que defendem aquilo que acreditam”.
“Michelle e Flávio conhecem muito bem nosso presidente Bolsonaro e sabem do grande respeito que ele tem às convicções e aos pensamentos individuais, e isso se tornou um dos princípios mais valiosos do nosso partido. É essa autenticidade que nos conecta com o povo brasileiro”, disse.
Uma das principais amigas de Michelle, Damares também entrou na turma do deixa-disso. A senadora promete ficar do lado da ex-primeira-dama independentemente do desfecho, mas se diz disposta a mediar a relação e a contribuir com a campanha de Flávio.
Para tentar diminuir a rejeição no eleitorado feminino, Flávio pediu que Damares participe de uma reunião de trabalho na próxima quarta-feira (1º), leve propostas e sugira o nome de outras mulheres que, na visão dela, podem ajudá-lo.
Em uma tentativa de reagir aos vídeos de Michelle, Flávio também convidou publicamente a madrasta para a reunião, mas ainda não houve resposta.
Pessoas próximas a Flávio afirmam que ele tentou falar com Michelle por telefone e mensagem diversas vezes desde janeiro, mas ela respondeu, repetidamente, que faria isso no tempo dela. A última tentativa ocorreu na quarta-feira (24) de manhã, horas antes dos vídeos.
A reportagem questionou a assessoria de imprensa da ex-primeira-dama sobre os supostos contatos de Flávio por telefone, mas não houve resposta. Nas gravações, Michelle diz que Flávio vai na casa dela toda semana e que, se quisesse falar com ela, já teria feito isso.
Nesta sexta-feira (26), Flávio publicou um vídeo da ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos), que tem participado de sua pré-campanha, e escreveu que “as mulheres terão um papel fundamental na reconstrução do Brasil”.
Já o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) manteve os ataques à madrasta. Eduardo compartilhou o vídeo de um youtuber com duras críticas à ex-primeira-dama, além de uma mensagem com elogios ao irmão pela resposta “com empatia e humildade”.
Eduardo também publicou o trecho de uma entrevista do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, foragido da Justiça, em que ele diz que Michelle quer prejudicar Flávio e fica “fazendo birra porque ela queria ser a candidata” a presidente.
Segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada no último dia 10, Lula (PT) tem 39% dos votos no primeiro turno e Flávio, 29%. Considerando só o eleitorado feminino, porém, a diferença é ainda maior. Lula sobe para 41% dos votos, enquanto Flávio cai para 24%.
