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Radares já conseguem medir seus batimentos cardíacos à distância, e a ciência debate como usar isso sem invadir sua privacidade

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Radares já conseguem medir seus batimentos cardíacos à distância, e a ciência debate como usar isso sem invadir sua privacidade


Radar usado em laboratório para captar sinais vitais à distância, como batimentos cardíacos. Pesquisadores desenvolveram o sistema MetaHeart, que consegue enganar o sensor ao refletir um padrão de batimento cardíaco fabricado.
Rice University
Por décadas, medir os batimentos cardíacos de alguém exigiu contato físico: um eletrodo, um oxímetro, uma pulseira colada ao pulso.
Hoje, sensores de rádio já conseguem fazer isso à distância, sem fio, sem que a pessoa precise vestir qualquer aparelho.
Nos últimos anos, esse tipo de tecnologia vem avançando num ritmo acelerado e já mostra resultados clínicos expressivos, desde detectar apneia do sono e acompanhar pacientes cardíacos em casa até monitorar bebês prematuros sem eletrodos na pele e identificar sinais precoces de sofrimento psicológico em trabalhadores.
Mas à medida que esses sensores ficam menores, mais baratos e mais precisos (e passam a ser embutidos em laptops, roteadores e dispositivos domésticos), uma pergunta vem se tornando inevitável para especialistas: quem controla os dados que eles captam?
Essa questão tem mobilizado pesquisadores de várias áreas. Enquanto alguns desenvolvem formas cada vez mais sofisticadas de monitorar sinais do corpo à distância, outros tentam criar mecanismos para impedir que essas informações sejam capturadas sem o conhecimento ou o consentimento
Mas como essa tecnologia funciona — e por que ela preocupa especialistas em privacidade? Enteda mais abaixo:
O que um radar consegue ver no seu corpo
Os sensores no centro desse debate funcionam como um morcego: emitem ondas de rádio e analisam como elas retornam após bater em superfícies e objetos.
A grande diferença aqui, contudo, é que eles são muito mais precisos que os mamíferos voadores. O coração faz o tórax vibrar a cada batimento, e essa vibração microscópica fica registrada no sinal que volta ao sensor.
Grosso modo, computadores conseguem extrair esse padrão do ruído de fundo e estimar a frequência cardíaca de uma pessoa, mesmo que ela esteja sentada normalmente, com roupas comuns, a vários metros de distância.
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E os resultados já alcançados com isso são expressivos.
Estudos recentes mostram que sensores de radar comerciais conseguem estimar a frequência cardíaca com erro médio de cerca de 5 a 6 batimentos por minuto em relação a faixas de referência, inclusive dentro de carros em movimento, com leituras de apenas cinco segundos.
É uma precisão inferior à de equipamentos médicos de contato, mas suficiente para monitoramento contínuo em situações do dia a dia.
Para o sono, revisões recentes indicam que wearables e sensores com inteligência artificial conseguem detectar episódios de apneia com acurácia entre 80% e 90%, em janelas de análise de pelo menos alguns segundos.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
Além de contar batimentos, esses sensores conseguem captar algo mais revelador: a variação no intervalo entre um batimento e outro, um índice chamado de HRV, sigla em inglês para variabilidade da frequência cardíaca.
Esse dado é um espelho do sistema nervoso autônomo, a parte do sistema nervoso que regula funções involuntárias como ritmo cardíaco e resposta ao estresse.
Quando uma pessoa está sob pressão intensa ou com fadiga acumulada, o coração perde parte da sua capacidade natural de variar esse intervalo, e essa queda é mensurável.
Em outras palavras: o coração revela, mesmo sem permissão, muito sobre o estado interno de quem o carrega.
Paralelamente, outra tecnologia já avança bastante pelo mesmo caminho usando câmeras comuns. O princípio é simples: a cada batimento cardíaco, a pele muda sutilmente de cor porque o sangue pulsa pelos vasos próximos à superfície.
Câmeras convencionais conseguem captar essa variação e, a partir daí, extrair a frequência cardíaca, respiração e outros sinais, apenas analisando o vídeo do rosto de uma pessoa, sem nenhum contato físico.
A técnica já tem aplicações em consultas médicas remotas, mas levanta um problema imediato: qualquer câmera, em princípio, pode virar um sensor cardíaco sem que o alvo perceba.
Sensores de rádio e até câmeras comuns já conseguem medir batimentos cardíacos à distância, sem contato físico. Mas quem controla esses dados biométricos?
Pexels
As promessas médicas
O fato é que a maior parte da pesquisa nessa área tem motivação claramente médica, e os resultados são genuinamente promissores.
Uma revisão publicada em 2022 reuniu as aplicações clínicas já demonstradas: acompanhamento de pacientes cardíacos e respiratórios em casa, diagnóstico de apneia do sono, prevenção de morte súbita em berços de prematuros, monitoramento de queimados sem encostar na pele lesionada, e até detecção de sinais vitais sob escombros em resgates após desastres.
O instituto alemão Fraunhofer IDMT tem um projeto voltado especificamente a isso: começou com detecção de respiração durante o sono e foi expandido para outros sinais vitais, com foco em apneia, doenças pulmonares crônicas e quedas de idosos.
A lógica é direta, um sensor no quarto pode acompanhar a saúde de um idoso continuamente, sem que ele precise vestir nada ou lembrar de carregar um aparelho.
Na saúde mental, a conexão entre esses sensores e o sofrimento psicológico também começa a ganhar evidências.
Um estudo de 2024 testou esse tipo de sensor em cadeiras de escritório com 30 voluntários, medindo a variação dos batimentos em sessões de cinco minutos duas vezes ao dia.
Os resultados se alinharam bem aos de um eletrocardiograma convencional, e o sistema conseguiu identificar pessoas com alto sofrimento psicológico com boa precisão, sugerindo uso como ferramenta de triagem precoce.
Um trabalho anterior, de 2019, mostrou que sensores semelhantes conseguem classificar estados mentais, incluindo fadiga cognitiva, com cerca de 82% de acurácia.
E se os sensores à distância conseguem medir a variação dos batimentos com boa fidelidade (o que as pesquisas recentes indicam), eles se tornam candidatos naturais para detectar precocemente sinais de estresse crônico e fadiga acumulada, antes mesmo que a pessoa perceba o que está acontecendo com seu próprio corpo.
O mesmo sensor, dois usos
É exatamente aí que o debate se complica. A tecnologia que permite acompanhar a respiração de um idoso durante a noite é a mesma que poderia permitir a um empregador monitorar os batimentos cardíacos de funcionários durante o expediente, inferindo níveis de estresse e fadiga sem que eles soubessem ou concordassem.
Pesquisadores da Universidade Rice, nos Estados Unidos, publicaram em fevereiro um estudo que torna essa ameaça concreta.
O grupo demonstrou que sensores do tipo já presente em laptops e smartphones modernos conseguem medir batimentos cardíacos à distância com precisão suficiente para inferir presença, fadiga e estados fisiológicos de uma pessoa sentada em frente ao computador.
“A razão principal pela qual esse tipo de sensoriamento tende a se tornar um método de vigilância prevalente no futuro é exatamente a falta de regulamentação governamental sobre ele”, disse ao g1 a pesquisadora Dora Zivanovic, responsável pelo estudo. “Isso decorre precisamente do fato de as pessoas não associarem esses sensores ao monitoramento biométrico [a coleta de dados do corpo]”.
Zhambyl Shaikhanov, professor da Universidade de Maryland especializado em sistemas sem fio de próxima geração, aponta uma outra vantagem desses sensores que os torna especialmente difíceis de detectar ou evitar.
“Radares de ondas milimétricas podem penetrar certos tipos de obstruções, como tecido ou roupa, e capturar sinais fisiológicos sutis sem exigir contato visual direto”, explicou Shaikhanov ao g1, que não teve relação com o estudo da Universidade Rice. “Isso torna o radar uma tecnologia complementar poderosa para sensoriamento em ambientes onde câmeras podem ser ineficazes.”
A pesquisadora Dora Zivanovic, da Rice University, testa em laboratório o sistema MetaHeart.
Rice University
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Diferente de câmeras, que já geram um debate público razoavelmente maduro sobre vigilância, esses sensores são completamente invisíveis na prática cotidiana.
Não há como saber, por exemplo, ao entrar num ambiente, se há um deles capturando sinais do seu corpo.
E, ao contrário de senhas ou outros dados digitais, informações cardíacas não podem ser trocadas se vazadas ou mal utilizadas.
No mundo corporativo, empresas já coletam dados biométricos de funcionários por meio de smartwatches em programas de bem-estar.
Especialistas em regulação alertam que esse dado, uma vez coletado, pode ser reutilizado para decisões sobre desempenho ou demissões, muitas vezes em zonas cinzentas da legislação, onde não há proibição expressa, mas também não há transparência sobre o que está sendo medido.
Como proteger o que o sensor não deveria ver
Diante desse cenário, uma linha de pesquisa emergente vem buscando criar formas de proteger os sinais do corpo antes que sejam capturados.
O sistema desenvolvido pela equipe da Rice, chamado de MetaHeart, é uma das primeiras propostas nessa direção.
O dispositivo usa um painel especial — uma metassuperfície capaz de manipular ondas eletromagnéticas de formas que materiais comuns não conseguem — posicionado entre a pessoa e o sensor.
Assim, em vez de bloquear o sinal, o que poderia ser detectado, ele o substitui: troca o eco real dos batimentos por um padrão cardíaco fabricado na hora.
“Enganamos o radar no nível do próprio sinal eletromagnético”, disse Zivanovic. “Você pode programar o dispositivo com qualquer padrão de batimento cardíaco que quiser.”
Em laboratório, o sistema conseguiu falsificar as leituras com precisão acima de 98%.
Para que esse tipo de proteção se torne viável fora do laboratório, porém, há obstáculos consideráveis a superar.
Shaikhanov, que pesquisa justamente sistemas baseados em metassuperfícies, aponta dois desafios centrais.
O primeiro é que a pessoa precisaria saber a frequência exata do radar que está tentando enganar, informação que raramente está disponível.
O segundo é de escala: “O dispositivo precisaria cobrir uma porção suficientemente grande da área do corpo de onde os sinais biométricos se originam. As demonstrações atuais são protótipos pequenos, de escala laboratorial. Para implantação prática e ampla, a tecnologia precisaria ser dimensionada significativamente em tamanho e capacidade de fabricação, permanecendo leve, de baixo custo e vestível.”
Por décadas, medir os batimentos cardíacos exigia contato direto com o corpo, com sensores e eletrodos colados à pele.
Pexels
O que diz o direito brasileiro
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados — a LGPD — classifica dados biométricos como dados pessoais sensíveis, categoria que exige um tipo de proteção reforçada.
Mas quando o sensor não coleta uma impressão digital ou uma imagem do rosto, e sim uma frequência cardíaca ou um padrão de respiração, o enquadramento jurídico fica menos evidente.
“A LGPD não categoriza de forma exaustiva o que sejam sinais fisiológicos, razão pela qual o enquadramento depende do contexto técnico e do uso que se fará dessas informações”, explica Eduardo Telles, sócio do Tauil & Chequer Advogados associado a Mayer Brown.
Segundo ele, a análise parte de dois eixos: a possibilidade de vincular os dados a uma pessoa identificável e as inferências que o tratamento possibilita. “Quando medições como frequência cardíaca ou microexpressões faciais permitem inferências sobre saúde, como inferir obesidade ou risco cardíaco do usuário, tende a justificar-se proteção mais rigorosa”, diz.
A coleta silenciosa, característica central dos sensores discutidos nessa área, é o ponto de maior risco jurídico imediato. “A falta de transparência pode gerar riscos jurídicos relevantes e sanções regulatórias”, alerta Ana Letícia Allevato, associada do mesmo escritório.
Ela explica que, antes de qualquer implantação desse tipo de tecnologia, organizações deveriam elaborar um Relatório de Impacto à Proteção de Dados, documento que mapeia riscos, avalia alternativas menos invasivas e documenta a necessidade e a proporcionalidade do que está sendo coletado.
Allevato também chama atenção para o chamado desvio silencioso de finalidade: quando dados coletados para um propósito — saúde ou segurança, por exemplo — migram para usos comerciais não autorizados.
Aliado a isso, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados — a ANPD — tem sinalizado que quer endurecer as regras nessa área.
Em 2025, chegou a suspender um programa que oferecia recompensas financeiras a quem cedesse a leitura da íris para empresas de tecnologia. E já anunciou que a biometria será uma das prioridades regulatórias nos próximos anos.
Na Europa, o caminho já está mais avançado: uma lei de inteligência artificial aprovada pela União Europeia passou a proibir, em 2025, o uso de qualquer tecnologia que tente inferir o estado emocional de trabalhadores a partir de dados do corpo, seja por câmera, smartwatch ou radar.
Para Shaikhanov, o desafio maior dos próximos anos será garantir que a evolução dessas tecnologias venha acompanhada de proteções equivalentes.
“Sistemas avançados de sensoriamento são cada vez mais capazes de extrair informações sensíveis sem o conhecimento ou o consentimento de uma pessoa”, diz. “Isso levanta questões importantes sobre como essas tecnologias devem ser projetadas, regulamentadas e implantadas.”
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