Economia
Por que a decisão dos EUA sobre PCC e CV pode afetar PIX, bancos e empresas no Brasil
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5 minutos agoon
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Decisão dos EUA sobre facções pode impactar mercado
As facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) passam a ser consideradas organizações terroristas pelos Estados Unidos, em medida anunciada na quinta-feira (28) pelo governo de Donald Trump.
As duas já foram incluídas na lista de “Terroristas Globais Especialmente Designados” e, a partir de 5 de junho, também entrarão na lista de “Organizações Terroristas Estrangeiras”.
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Segundo especialistas ouvidos pelo g1, a medida não deve provocar impactos imediatos no comércio entre Brasil e EUA nem gerar barreiras comerciais diretas.
No entanto, a decisão aumenta a pressão sobre bancos e empresas brasileiras para identificar a origem dos recursos e reforçar mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro do crime organizado.
Abaixo, entenda os principais impactos da medida no Brasil (clique no menu para ir ao tópico).
PIX e bancos devem passar por fiscalização mais rígida
O nó jurídico que preocupa investidores
Os impactos na bolsa e no dólar
PIX e bancos devem passar por fiscalização mais rígida
O Pix foi mencionado em um relatório em que os EUA listam o que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas norte-americanas
Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Segundo especialistas, o principal impacto da decisão dos EUA no Brasil deve ocorrer no sistema financeiro.
🔎 Com a classificação de um grupo como organização terrorista estrangeira (FTO), a legislação americana amplia os instrumentos de combate financeiro, permitindo bloqueio de recursos, aumento de sanções e monitoramento mais rigoroso de operações suspeitas.
Com isso, instituições que tenham qualquer ligação — mesmo indireta — com recursos associados a esses grupos podem passar a ser monitoradas mais de perto pelas autoridades americanas.
Por isso, bancos, fintechs, instituições de pagamento e cooperativas de crédito que operam em dólar ou mantêm relação com o mercado americano tendem a reforçar os processos de identificação de clientes e monitoramento de transações para reduzir o risco de sanções.
Como exemplo desse tipo de atuação, no ano passado, o Tesouro dos EUA bloqueou transações envolvendo instituições financeiras do México suspeitas de ligação com lavagem de dinheiro para cartéis, em uma ação voltada ao combate ao narcotráfico e ao tráfico de fentanil.
O PIX também deve ganhar atenção adicional das autoridades. Como o sistema movimenta bilhões de reais diariamente e permite transferências instantâneas, bancos e órgãos de fiscalização podem ampliar o acompanhamento de operações consideradas suspeitas.
No Brasil, investigações da Polícia Federal já vêm mostrando como organizações criminosas usam contas digitais, empresas de fachada e transferências eletrônicas para ocultar a origem do dinheiro.
Nesta semana, por exemplo, a Operação Fluxo Oculto — desdobramento da Operação Carbono Oculto — apurou a atuação da chamada “máfia da nafta”, que utilizava “contas-bolsão”, onde recursos de diferentes clientes são misturados em uma única conta, dificultando o rastreamento das transações.
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Para Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing, rastrear o fluxo de recursos costuma ser uma das primeiras medidas adotadas no combate ao crime organizado.
“O rastro do dinheiro é sempre a primeira linha de atuação em medidas desse tipo. O PIX naturalmente entra nesse monitoramento porque movimenta um volume enorme de transações diariamente”, afirma.
“Tivemos recentemente operações envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro via PIX. Tudo isso agora pode entrar no escopo dessa nova classificação das facções.”
Sant’Anna lembra que a expansão do PIX já vinha sendo acompanhada de perto pelo mercado americano, principalmente porque o sistema brasileiro reduziu a participação de empresas tradicionais de cartões e meios de pagamento dos Estados Unidos no país.
🔎 O sistema brasileiro de pagamento instantâneo entrou na mira do governo dos EUA durante uma investigação comercial aberta em julho de 2025, a pedido do presidente Donald Trump.
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O nó jurídico que preocupa investidores
Um dos principais pontos de atenção para o mercado financeiro é a diferença entre a legislação brasileira e a americana. Enquanto os Estados Unidos passaram a classificar PCC e CV como organizações terroristas, o Brasil continua tratando os grupos como facções criminosas.
🛑 Na prática, essa classificação nos EUA muda o nível de risco jurídico: qualquer apoio direto ou indireto pode ser enquadrado como crime pela legislação americana. Isso faz com que bancos e empresas adotem mais cautela, já que passam a responder a regras mais rígidas de sanções e controle.
A diferença entre os dois modelos aumenta a insegurança jurídica e preocupa investidores estrangeiros. Para Milene Dellatore, especialista em investimentos e sócia-diretora do Grupo Mide, o efeito mais sensível é reputacional.
“Investidor estrangeiro não gosta de ruído institucional. Quando o Brasil aparece associado a terrorismo, mesmo que o problema real seja crime organizado, isso cria um red flag (sinal de alerta) Ele começa a olhar o país com mais cuidado, principalmente em setores financeiros, infraestrutura, logística, portos, combustíveis e empresas com operação internacional”, afirma.
Especialistas afirmam que, ao passar a ser tratado no âmbito do contraterrorismo e das sanções internacionais, o tema tende a aumentar o custo e a complexidade das operações empresariais.
Também há receio de que empresas brasileiras com atuação internacional ou ações negociadas no exterior passem a enfrentar investigações e fiscalizações mais rigorosas por parte dos órgãos reguladores. Setores com grande circulação de dinheiro, como combustíveis, logística e mercado imobiliário, tendem a enfrentar auditorias mais rigorosas.
Para Beny Fard, sócio da B8 Partners, o principal impacto é operacional e regulatório:
“A decisão muda menos o comércio entre os dois países e mais o custo de operar sob a lei americana”, afirma Fard. “A lei antiterrorismo dos EUA pode alcançar instituições que processem recursos ligados às facções mesmo sem conhecer a origem do dinheiro.”
Matheus Balbino, professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Braz Cubas, afirma que a medida não gera sanções automáticas ao Brasil, mas amplia a pressão internacional sobre o país.
Segundo ele, o efeito mais provável no curto e médio prazo é o fortalecimento da cooperação entre países em áreas como inteligência financeira, combate à lavagem de dinheiro e rastreamento de recursos ilícitos.
Essa maior pressão, acrescenta, pode exigir mais integração entre bancos, fintechs, órgãos de fiscalização e autoridades financeiras.
“A tendência é de fortalecimento dos mecanismos de rastreamento de recursos, especialmente em operações internacionais, criptomoedas, empresas de fachada e movimentações financeiras consideradas atípicas”, afirma.
Com o aumento da vigilância sobre operações financeiras, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), responsável por identificar movimentações atípicas e produzir relatórios de inteligência, tende a ganhar ainda mais relevância no monitoramento de operações suspeitas.
Balbino também cita o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI/FATF), organismo criado pelo G7 e responsável por definir padrões globais de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.
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Impactos na bolsa e no dólar
Ibovespa opera em baixa, puxado pelo exterior.
Freepik
A mudança na percepção de risco dos investidores estrangeiros ainda não aponta para efeitos relevantes sobre a economia brasileira como um todo. No curto prazo, porém, o efeito mais provável é uma pressão de alta no dólar em relação ao real.
Isso acontece porque, em momentos de incerteza, investidores passam a enxergar o país como um ambiente mais arriscado para aplicações financeiras.
🔎 O chamado risco-país mede justamente essa percepção de confiança na estabilidade de um país. Quando ele sobe, investidores exigem retornos maiores para manter recursos no mercado local, o que encarece o capital e pode pressionar o câmbio.
Esse ambiente tende a aumentar a volatilidade do dólar e da bolsa. Enquanto isso, os investidores acompanham com cautela os possíveis desdobramentos da decisão.
📉 Nesta sexta-feira (29), o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, caiu 0,73%, aos 173.787 pontos, o menor valor desde 21 de janeiro (171.817 pontos). Já o dólar fechou em alta de 0,21%, cotado a R$ 5,0424 (veja mais detalhes do dia no mercado).
De acordo com Felipe Sant’Anna, em meio ao aumento da cautela, investidores têm reduzido exposição principalmente a ações de bancos e varejistas, setores mais sensíveis à elevação das incertezas.
A queda da bolsa brasileira não começou agora. O mercado já vinha em baixa há semanas e pode fechar a sétima semana consecutiva de recuo, segundo analistas.
Nesta semana, o Ibovespa acumulou queda de 0,64% até quinta-feira e recuo de 6,53% no mês. Além da decisão dos EUA, o cenário também reflete incertezas globais, como as tensões no Oriente Médio.
Em períodos de maior incerteza, investidores costumam vender primeiro ações que acumularam maiores ganhos ou que são mais dependentes do desempenho da economia. Por isso, a queda acaba sendo mais forte em empresas menores e em setores mais ligados ao ciclo econômico, o que mostra aumento da aversão ao risco na bolsa brasileira.
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