Economia
Petróleo, inflação e bolsas: os estragos econômicos deixados pela guerra entre EUA e Irã
Published
1 minuto agoon
By

Trump e presidente do Irã assinam acordo de paz, que já está em vigor
O acordo de paz entre Estados Unidos e Irã encerra um conflito de quase quatro meses no Oriente Médio. Independentemente das motivações questionáveis do presidente americano, Donald Trump, fato é que a guerra prejudicou a economia global.
A interrupção do fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz provocou uma série de problemas. O preço da commodity disparou, os combustíveis e seus derivados pressionaram a inflação em vários países, e as perspectivas futuras para a economia se deterioraram.
🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
Resultado é que os preços subiram para o consumidor, enquanto o mercado financeiro acumulou perdas com a revisão das estratégias de investimento. Nesse cenário, as bolsas de valores caíram e o dólar se fortaleceu.
Agora, com o fim do conflito, economistas tentam estimar quando a economia dará sinais de normalização. O g1 listou os principais efeitos da guerra sobre a economia e as possíveis saídas para a recuperação.
Veja nesta reportagem os principais impactos em:
Alta nos preços do petróleo e de combustíveis
Alta na inflação dos EUA e queda na popularidade de Trump
Os efeitos no Brasil
Impactos no mercado financeiro
Piora nas projeções de crescimento da economia global
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fala durante cerimônia no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, D.C., em 10 de junho de 2026.
Ken Cedeno/AFP
Alta nos preços do petróleo e de combustíveis
O conflito foi marcado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passam cerca de 20% do petróleo e 25% do gás natural comercializados no mundo. Após o início dos ataques, o preço do barril quase dobrou, passando de cerca de US$ 70 para quase US$ 120.
Analistas chegaram a classificar o episódio como o maior choque petrolífero já registrado, superando as crises de 1973, 1979 e 2022. Para ampliar a oferta da commodity e conter o disparo dos preços, a Agência Internacional de Energia (IEA) realizou a maior liberação emergencial de estoques de sua história.
Ainda assim, a alta do petróleo não foi amortecida o suficiente e pressionou a inflação em diversos países. O impacto atingiu primeiro os combustíveis e seus derivados e, em seguida, se espalhou pelos transportes, pela indústria e até pela produção agrícola:
Fertilizantes ficaram mais caros, com a ureia acumulando alta de cerca de 60%.
O aumento do combustível de aviação contribuiu para o cancelamento de milhares de voos.
Fretes marítimos e rodoviários subiram, encarecendo alimentos e bens de consumo.
🛢️ Com o anúncio do acordo de paz nesta semana, o mercado começou a se estabilizar. Nesta quinta-feira (18), o petróleo Brent recuou para US$ 78,33 por barril, aliviando parte das pressões sobre a inflação. No início da manhã de sexta-feira, o petróleo Brent estava cotado a US$ 79,68 por barril, após cancelamento do encontro na Suíça. Ainda assim, está quase US$ 10 mais caro que antes do início do conflito.
Alta na inflação dos EUA e queda na popularidade de Trump
O presidente americano iniciou o segundo mandato prometendo reduzir o custo de vida. Mas, também nos EUA, a alta do petróleo elevou o preço dos combustíveis — um dos itens mais sensíveis para o eleitorado de Trump.
O preço médio do galão de gasolina nos EUA saltou de cerca de US$ 2,98 para mais de US$ 4.
Em maio, a inflação ao consumidor chegou a 4,2% no acumulado em 12 meses, o maior patamar em três anos. O índice se afastou ainda mais da meta de 2% do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).
Como o Fed utiliza os juros para controlar a inflação, a instituição manteve a taxa básica na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano na reunião de quarta-feira (17), adiando ainda mais a esperada redução nos EUA.
Esse baque econômico provocou uma queda ainda mais acentuada na aprovação de Trump.
Em 2025, a aprovação de Donald Trump havia recuado de 42% em abril para 40% em julho, em meio aos efeitos do tarifaço imposto aos parceiros comerciais dos EUA.
Com a guerra e uma nova aceleração da inflação, sua popularidade atingiu o pior nível do segundo mandato em abril deste ano, chegando a 34% de aprovação.
Pesquisas da Reuters/Ipsos mostraram que 63% dos americanos desaprovavam o governo, enquanto apenas 36% o aprovavam. Na área econômica, a aprovação era ainda menor, de 27%, o pior resultado da série histórica do instituto.
🛢️ O recuo dos preços da gasolina nas últimas semanas trouxe uma melhora modesta. A aprovação da atuação de Trump no combate ao custo de vida subiu de 22% para 24%, mas o presidente segue bem abaixo dos níveis registrados no início do mandato.
Veja mais na reportagem abaixo:
O que está por trás da crise de popularidade de Trump e quais os reflexos no mundo
Os efeitos no Brasil
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que os preços do diesel e da gasolina no Brasil chegaram a acumular altas de 23,6% e 8%, respectivamente, nos últimos meses — e não demorou até que o consumidor sentisse o efeito disso no bolso.
O governo chegou a anunciar um pacote de medidas para conter os preços dos combustíveis nas bombas, mas não conseguiu evitar os impactos sobre o custo do frete, por exemplo — o que gerou um efeito em cadeia e pressionou os preços de diversos itens da cesta de consumo.
➡️ O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, acumula alta de 3,20% no ano até maio. Em 12 meses, o índice avançou 4,72%, acima do teto da meta para 2026, de 4,5%.
Com a pressão sobre os preços e a incerteza provocada pela guerra nos últimos meses, as projeções do mercado financeiro para os juros também pioraram.
O Boletim Focus da última segunda-feira (15) mostra que os economistas do mercado esperam uma taxa Selic de 13,75% ao ano em 2026, um aumento de 0,25 ponto percentual (p.p.) em relação à semana anterior.
🔎 Isso significa que o mercado espera juros elevados por mais tempo, o que deve continuar encarecendo o crédito e pode limitar o consumo das famílias brasileiras.
Entre os principais setores da economia, os efeitos foram variados. De um lado, exportadores de petróleo se beneficiaram com a alta das cotações. Por outro, segmentos dependentes da commodity sentiram o impacto nos preços de derivados.
O resultado é uma pressão generalizada sobre a economia brasileira, com efeitos que vão do bolso do consumidor ao desempenho dos setores produtivos.
Veja os impactos da guerra pelo mundo
Guerra no Irã: como países tentam conter o impacto da crise de energia nas famílias
Países alertam para impacto prolongado do conflito no Oriente Médio
Guerra no Oriente Médio: efeitos na economia serão duradouros e no mundo inteiro, diz FMI
Impactos no mercado financeiro
As incertezas sobre a duração do conflito e seus impactos na economia global também se refletiram nos mercados de câmbio e de ações ao redor do mundo.
Como costuma ocorrer, o início da guerra trouxe uma valorização do dólar. Isso acontece porque a moeda americana é vista como um dos ativos mais seguros do mundo e costuma ser a preferência dos investidores em momentos de incerteza, como forma de proteger suas aplicações.
No Brasil, o dólar atingiu o maior nível do ano em 13 de março, mês seguinte ao início do conflito, ao ser cotado a R$ 5,3142, impulsionado pela alta do petróleo. Nos meses seguintes, o cenário começou a mudar, à medida que as incertezas iniciais se dissiparam e o mercado passou a ter mais clareza sobre quais países e setores seriam mais impactados pela guerra.
Com isso, investidores reduziram suas posições em dólar e passaram a buscar ativos mais arriscados — movimento que favoreceu o real. No acumulado do ano até quarta-feira (17), a moeda americana registrava desvalorização de 6,94%.
O movimento foi semelhante nos mercados de ações: em um primeiro momento, investidores retiraram recursos de ativos mais arriscados e, depois, passaram a apostar em papéis que poderiam se beneficiar do novo cenário.
🔎 Vale destacar que outros fatores também influenciaram as cotações nos últimos meses, como o tarifaço imposto pelo governo Trump, a política fiscal brasileira, o noticiário corporativo e os dados econômicos do Brasil e dos Estados Unidos.
No acumulado do ano até a última quarta-feira, o Ibovespa, principal índice da bolsa de valores brasileira, registrava alta de 4,38%.
Piora nas projeções de crescimento da economia global
Antes do conflito entre EUA e Irã, a previsão era de que o crescimento global desacelerasse apenas de forma moderada, com a inflação perdendo força e permitindo um ambiente econômico mais estável.
Com a escalada da guerra, porém, o cenário piorou. O aumento dos preços do petróleo e de outras matérias-primas elevou os custos de produção, transporte e energia em diversos países, alimentando a inflação e reduzindo ainda mais as perspectivas de crescimento.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a projeção de crescimento da economia mundial em 2026 de cerca de 3,3% para 3,1%, citando os impactos da guerra sobre os preços das commodities, as condições financeiras e a confiança dos investidores;
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) passou a estimar uma desaceleração do crescimento global, de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026. A organização alertou que, caso a crise energética se prolongasse, a expansão global poderia cair para apenas 2,1%, nível associado a períodos de forte desaceleração econômica;
Países como Alemanha e França tiveram suas projeções reduzidas devido ao encarecimento da energia, que diminuiu o poder de compra das famílias e aumentou os custos das empresas.
Mesmo com a melhora recente, FMI e OCDE avaliam que a recuperação dependerá da manutenção da estabilidade no Oriente Médio e da normalização do abastecimento global de energia.
