Para o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), 41, é mentira que a classificação das facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como terroristas, pelos Estados Unidos, implique uma ameaça à soberania nacional.
Capitão da Polícia Militar, hoje na reserva, ele afirma que a possibilidade de os EUA atuarem no Brasil é uma ilação. “A esquerda tem dificuldade com esse tema [da segurança pública], porque tem uma outra visão de mundo”, disse ele em entrevista à Folha.
Pré-candidato ao Senado por São Paulo nestas eleições, Derrite integra a chapa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de quem foi secretário de Segurança Pública entre 2023 e 2025. Ex-tenente da Rota (grupo de elite da PM), já declarou ser vergonhoso um policial não matar três criminosos em cinco anos –frase que surgiu em um áudio vazado e da qual disse, posteriormente, ter se arrependido.
À frente da secretaria, enfrentou polêmicas como episódios de violência policial e casos de corrupção envolvendo agentes presos por suspeita de ligação com o PCC.
Deputado federal no segundo mandato, aparece com 10% de intenções de voto no Datafolha sobre a disputa pelo Senado em São Paulo. Derrite está tecnicamente empatado, dentro da margem de erro de dois pontos, com os também candidatos de direita André do Prado (PL), que tem 11%, e Ricardo Salles (Novo), que marca 13%. Lideram as intenções de votos Marina Silva (Rede), com 18%, e Simone Tebet (PSB), com 16%.
Três quadros de direita concorrem ao Senado em SP: o sr., Ricardo Salles e André do Prado. Os dois disseram que o apoiam, mas qual deles será apoiado pelo sr.?
É difícil. Sou leal a Tarcísio, a Flávio Bolsonaro e à direita, e numa eleição majoritária você nunca vai conseguir agradar a todos. Tenho muito respeito pelo Salles, sempre fomos amigos e espero que não seja uma eleição que nos separe. Mas sou um cara de equipe e o nosso líder aqui em São Paulo é o Tarcísio, que já falou: a chapa é André e Derrite. É o time que está fechado e pelo qual vou trabalhar para que vença. Não é o ideal, o ideal seria que tivéssemos somente dois candidatos à direita.
O sr. acha que alguém tem que desistir?
É muito complicada essa pergunta porque qualquer um vai dizer “sim, mas não serei eu”. Democraticamente falando, todo mundo tem o direito de se candidatar. Mas não sou eu que vou desistir, até porque eu sou o único que está oficialmente homologado [como candidato] em convenção.
E a sua relação com o governador, houve um afastamento?
Nunca tive atrito com Tarcísio, é um cara muito fácil de lidar. Quando eu voltei para o mandato [na Câmara dos Deputados] em dezembro, por causa do PL Antifacção [do qual foi relator], começaram boatos de rusgas, porque Tarcísio continuou cumprindo a agenda dele como governador, e eu não estava mais aqui no estado. Mas nunca tive problema nenhum com ele.
O sr. acha que discussões públicas entre os membros da família Bolsonaro enfraquecem a direita?
Você pode não acreditar, mas sei muito pouco sobre isso. Estou focado em cumprir a minha agenda. Mas acho que família é assim, né? Toda família tem as suas peculiaridades. Tenho a certeza de que, independentemente do que tenha acontecido, ou até do que venha acontecer, teremos um segundo turno entre Flávio e Lula. E a tendência é de que o eleitor [indeciso] migre para Flávio.
Por quê?
O custo de vida está cada vez mais caro. O brasileiro está começando a sentir o peso da inflação, mesmo que ela não esteja no indicador. O poder de compra diminuiu demais, há o maior endividamento da história. O governo não prioriza a segurança pública, o PT votou contra interromper a saída temporária de presos, fez um lobby gigantesco para tirar a redução da maioridade penal da PEC da Segurança Pública. A esquerda tem dificuldade com esse tema, porque tem uma outra visão de mundo.
O sr. enxerga a classificação de CV e PCC como terroristas, por parte dos EUA, como algo que fere a soberania nacional?
A população tem que ter consciência de que isso é mentira, isso jamais vai acontecer. Uma operação militar dos EUA no Brasil é uma ilação que inventaram para criar um discurso de soberania nacional. Se os EUA assim o fizessem, estariam ferindo vários tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.
Eles já não feriram contra outros países?
Me dê um exemplo? Porque quando falam isso eu preciso de um exemplo. Podemos usar a Venezuela de exemplo? Nicolás Maduro é um criminoso condenado em várias cortes americanas. É completamente diferente. Segundo a apuração da Justiça americana, Maduro tinha relação direta com os narcoterroristas, foi por isso que ocorreu uma operação de guerra. É como se, no Brasil, o presidente fosse um sócio investidor do CV e do PCC para trazer cocaína da Bolívia.
Mas os EUA podem ter jurisdição sobre o Brasil?
A classificação do PCC e CV como organizações terroristas se dá por alguns fatores. O principal ponto é que a atuação transnacional das facções está afetando a vida da população nos EUA, a lavagem de dinheiro chegou lá. Juridicamente falando, com base nos tratados internacionais, os EUA não farão operações militares aqui no nosso país.
E eu pergunto: existe soberania nacional plena no Brasil? As comunidades no Rio de Janeiro são dominadas pelo CV, toda a exploração da atividade econômica já é de um Estado paralelo. Existe uma janela de oportunidade gigantesca para o Brasil com essa classificação, os principais setores de inteligência americanos vão fazer o rastreamento do dinheiro que está sendo lavado, e eles podem nos ajudar com a cooperação na área de inteligência.
O sr. ironizou promessas do PT na área de segurança pública e disse que a sua prioridade é colocar a vítima no centro do debate. Isso não contrasta com o aumento da letalidade policial durante a sua gestão na secretaria e com reclamações de familiares de vítimas sobre não terem recebido assistência?
Letalidade policial não existe, esse termo é preconceituoso. Existe letalidade criminal, porque o policial não sai para a rua em serviço querendo matar ninguém. Quem dá causa ao confronto é o criminoso. É diferente de um eventual abuso de poder —esse tem que ser completamente abolido. O aumento dos confrontos aconteceu porque tivemos um planejamento estratégico de combate ao crime organizado, aumentaram as prisões, as apreensões de armas e de drogas. Com isso, houve a maior redução de homicídios da história de São Paulo.
É natural que aumentem os confrontos, mas isso não foi incentivado pela Secretaria de Segurança Pública ou pela Polícia Militar. Foi uma consequência natural de uma polícia que estava nos locais onde havia maior probabilidade de que o crime acontecesse. Sobre as famílias, se um criminoso atira em um policial e o policial age em legítima defesa, a família desse criminoso tem que receber algum tipo de benefício?
E nos casos em que as pessoas estavam desarmadas, como quem levou um tiro pelas costas?
Aí fica difícil. Se aconteceu isso, não sei qual foi o caso. A gente precisa colocar uma lupa em cima. Mas te garanto que, em 99% dos casos, o policial agiu em legítima defesa. A gente não pode usar uma exceção como regra.
Apesar dos homicídios em queda em São Paulo , como explicar o aumento nos feminicídios?
Muitos feminicídios eram registrados como homicídios, e a gente fez uma apuração mais detalhada. Não é que houve um aumento, o feminicídio já estava escondido dentro das estatísticas de homicídios, só que agora a gente colocou a lupa e separou. Isso nos deu impulso para criar outras políticas públicas, sendo a principal delas o uso da tornozeleira eletrônica para monitorar o agressor de violência contra mulher, que foi o tema da minha dissertação do mestrado.
Por que a primeira comandante mulher da PM só foi nomeada depois da sua saída da pasta?
Vou te responder com outra pergunta: por que a primeira mulher comandante da polícia foi promovida na minha gestão? Eu que promovi a Glauce [Cavalli] a coronel. Ela é espetacular, uma profissional por quem tenho grande admiração e confiança. O governador Tarcísio acertou em nomear a primeira mulher, romper essa barreira da questão do homem e da mulher.
Mas para isso é importante ter mulheres nas instituições…
É muito importante, mas mais importante do que ter uma mulher é ter uma mulher da qualidade da Glauce. Ela não chegou ao posto de comandante-geral por ser mulher, chegou porque é muito preparada, porque é uma das pessoas que mais conhece de orçamento público dentro da instituição. Se a gente não a tivesse promovido na nossa gestão, hoje não seria ela [a comandante]. Ela merece, e por merecimento.
O sr. se arrepende de ter indicado o coronel Coutinho, citado em investigações, a comandante da PM?
É complicado, porque Coutinho foi promovido a coronel antes da nossa gestão e só fui tomar conhecimento quando já não era mais secretário de vazamento de informações [sobre menção de Coutinho em grupo suspeito de ligação com o PCC; o policial nega qualquer relação]. Quando assumi, nós tínhamos 63 coronéis, o Coutinho entre eles. Ele trabalhou em unidades por onde passaram somente oficiais de extrema capacidade e legitimidade. Não tinha, na época da nossa gestão, nenhuma vírgula de desconfiança. Mas defendo uma investigação 100% transparente. Tanto é que tudo isso só está acontecendo porque a nossa gestão priorizou a independência dos órgãos correcionais. Dei toda a autonomia, e nem eu ficava sabendo das operações.
Raio-X | Guilherme Derrite, 41
Natural de Sorocaba (SP), foi policial militar, tenente da Rota e oficial do Corpo de Bombeiros. É formado em direito e possui mestrado em Gestão e Políticas Públicas pelo IDP. Eleito deputado federal em 2018 e em 2022, foi secretário de Segurança Pública de São Paulo (2023-2025) e é pré-candidato ao Senado pelo PP no estado.
