“A infiltração do crime organizado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro [Alerj] não é ficção”, segundo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Seu colega Gilmar Mendes, decano da corte, disse ter ouvido do diretor da Polícia Federal que “32 ou 34 parlamentares da Assembleia recebiam mesada do jogo do bicho”.
Adversário político do grupo atualmente no comando do Legislativo fluminense, o presidente Lula declarou que, “se a Assembleia tivesse que indicar [o governador do RJ], viria um miliciano”.
No centro dos últimos escândalos políticos que levaram o STF a manter até agora o desembargador Ricardo Couto como governador interino –em vez do presidente do Legislativo estadual, Douglas Ruas (PL), como determina a Constituição–, a Alerj é uma espécie de CBF da política: assim como na Confederação Brasileira de Futebol, quase todos os seus dirigentes mais recentes foram afastados e/ou presos após denúncias de malfeitos diversos.
Antes de Ruas, dos cinco presidentes eleitos pelos deputados estaduais para presidir a Casa neste século –Sérgio Cabral (PSDB/PMDB), Jorge Picciani (PMDB), Paulo Melo (PMDB), André Ceciliano (PT) e Rodrigo Bacellar (União Brasil)–, apenas Ceciliano não foi preso.
Um dos pivôs da atual crise, Bacellar teve a prisão decretada por Moraes no âmbito da Operação Unha e Carne, na qual o deputado é acusado de vazamento de dados de uma operação contra o Comando Vermelho. Em 2025, fora reeleito presidente da Alerj por unanimidade –nunca antes os 70 deputados tinham ungido um colega.
Exercia grande influência no governo de Cláudio Castro (PL). Em março, ambos foram condenados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por abuso de poder político e econômico –Bacellar teve o mandato cassado.
Além do presidente anterior, nos últimos meses outros dois integrantes da Alerj foram presos por indícios de corrupção e associação com o tráfico, TH Joias e Thiago Rangel (Avante).
Em relação à fala de Gilmar, a Alerj disse em nota que “não reconhece qualquer relação com a contravenção penal, bem como de qualquer investigação neste sentido relacionada à atual legislatura” e que “atua com austeridade e compromisso com o povo fluminense”.
Sobre a de Lula, reputou como “inaceitável qualquer tentativa de generalizar ou criminalizar o Parlamento fluminense e seus representantes eleitos pelo povo do Rio de Janeiro”.
Surgida no atual formato em 1975, com a fusão dos Legislativos do estado da Guanabara (criado em 1960 quando o Rio deixou de ser capital federal) e do antigo estado do Rio de Janeiro, sediado em Niterói, a Alerj funcionou originalmente no Palácio Tiradentes, prédio tombado no centro do Rio que acabou de completar cem anos e segue sendo a sua sede histórica.
Em 2021, os deputados se mudaram para um edifício de 30 andares, também no centro, conhecido como Banerjão, por ter sido sede do extinto banco Banerj. Foi logo apelidado de Alerjão.
Os grandes escândalos começaram na sede antiga. Em 2017, a Operação Cadeia Velha prendeu o então presidente da Alerj, Jorge Picciani, o ex-presidente Paulo Melo e o ex-corregedor Edson Albertassi e desbaratou esquemas de corrupção envolvendo uma construtora e empresas de ônibus.
Em 2018, na Operação Furna da Onça –desdobramento da Lava Jato no Rio– outros sete deputados acabaram presos, e Picciani, Melo e Albertassi foram alvo de novos mandados de prisão preventiva. O MPF e a PF investigaram um esquema em que deputados recebiam mesadas para votar a favor dos interesses do governo Sérgio Cabral.
A Alerj ganharia ainda o noticiário quando Flávio Bolsonaro, deputado estadual na Casa de 2003 a 2018 e hoje pré-candidato a presidente pelo PL, foi denunciado pelo Ministério Público do RJ sob acusação de recolher parte do salário de seus ex-funcionários em benefício próprio, caso de peculato conhecido como “rachadinha”.
O TJ-RJ acolheu pedido da defesa de Flávio questionando a competência da Justiça de primeira instância para julgar o caso, e o STF anulou as provas que embasaram a denúncia, afirmando que foram obtidas de forma irregular.
A transferência de sede para o “Alerjão” em 2021 concentrou num único prédio a burocracia da Casa, antes espalhada por três. O retrofit imprimiu um tom frio, impessoal e asséptico, quase hospitalar, aos andares por onde se concentram os gabinetes. Outra diferença foi na galeria para o público: a atual não tem cadeiras ou arquibancada, como no Tiradentes, e dela se tem visão parcial do plenário, isolado por vidros.
A sessão ordinária de 12 de maio, acompanhada pela Folha, foi conduzida por Douglas Ruas. Debateram-se projetos como o que estabelece a obrigatoriedade de instalação de banheiros e vestiários neutros em locais públicos e privados para uso exclusivo de pessoas trans (da deputada Índia Armelau, do PL) e outro para regulamentar o funcionamento de estabelecimentos de bronzeamento artificial no estado (de Carlinhos BNH, do PP).
Após 1h22min de sessão, Ruas passou a condução da mesa à deputada Célia Jordão (PSD) e deixou o plenário. Todos fizeram o mesmo, e o deputado Luiz Paulo (PSD) foi à tribuna discursar no chamado expediente final.
Falou por 12 minutos para um auditório vazio. Volta e meia Luiz Paulo se dirigia à presidente da sessão, mas às vezes Célia Jordão estava lendo. Sem perder o rebolado –até porque a TV Alerj filmava tudo, e na era dos cortes gravações assim são ouro–, ele defendeu que o funcionalismo não é o causador do déficit estadual, mas o desperdício de recursos e os crimes contra o erário.
Como mostrou reportagem da Folha, a Alerj é uma das Assembléias Legislativas do país que superam a relação entre deputados e funcionários comissionados da Câmara dos Deputados, em Brasília. Com orçamento anual de R$ 1,6 bilhão e 5.277 comissionados (vice-campeã nacional em números absolutos, atrás só de Goiás), o Legislativo do Rio tem 75,4 desses servidores por deputado.
Sem escamotear os problemas com colegas, Luiz Paulo, 80 –no final do seu sexto mandato consecutivo e pré-candidato à reeleição–, rebateu a frase de Gilmar Mendes. “Não é possível. É possível outras coisas de corrupção, mas jogo [do bicho] não.”
Desde a ascensão do bolsonarismo, a pauta da Alerj é dominada por representantes da direita radical aliados ao que poderia se chamar de centrão fluminense. A eleição de Douglas Ruas –que recebeu 44 votos, contra 25 ausências e uma abstenção– dá uma medida até generosa do tamanho da oposição, que costuma ser menor.
Tal qual tantos outros pelo país, o Legislativo fluminense é pródigo em figuras alheias à política, exóticas ou estrambóticas, eleitas às vezes por fama, parentesco e, cada vez mais comum, celebridades e subcelebridades de internet.
A galeria é composta por Thiago Gagliasso (PL), irmão do ator Bruno Gagliasso, que ganhou projeção ao expor publicamente divergências políticas com o parente mais famoso.
Já Samuel Malafaia é o irmão menos célebre do pastor Silas Malafaia e, segundo os colegas de Alerj, contraponto sereno e elegante do líder evangélico mais histriônico e bélico do bolsonarismo.
Enquanto os irmãos Chiquinho e Domingos estão presos, condenados por serem os mandantes do assassinato de Marielle Franco, Pedro Brazão (União) segue representando o clã na Alerj. À maneira de Samuel Malafaia em relação a Silas, é mais ponderado e gentil que os irmãos presos (Domingos chegou a, em plena Alerj, ameaçar matar a deputada Cidinha Campos), mas mantém parte da influência da família –controlava até há pouco a TV Alerj.
A influenciadora digital Sarah Poncio (SD) –integrante de uma família de famosos liderada pelo pastor e dono de fábrica de cigarros Márcio Poncio, seu pai– se elegeu graças ao engajamento nas redes (só no Instagram tem 3,4 milhões de seguidores) e o apoio da Igreja da Nuvem, projeto online criado pelos Poncio.
Giselle Monteiro (PL) deve o êxito eleitoral ao espólio político do irmão Gabriel Monteiro, ex-PM e youtuber que ficou preso por quase dois anos e meio e teve o mandato de vereador cassado por suspeita de estupro.
Renan Jordy (PL), por sua vez, surfou na onda do irmão Carlos Jordy, deputado federal. Acusado de agressão mais de uma vez (uma delas a um bombeiro dentro da Alerj após ficar preso no elevador), romperia com o parente mais famoso, que foi à Justiça para impedi-lo de usar o sobrenome –que na verdade é um apelido.
Embora Bacellar esteja fora do jogo, sua tropa de choque segue ativa na Alerj. É composta por quatro deputados do PL. O primeiro é Rodrigo Amorim, que em 2018 quebrou a placa em homenagem a Marielle Franco, foi condenado pelo crime de violência política de gênero por ofensas à vereadora trans Benny Briolly e propôs que o ator Fábio Porchat seja declarado persona non grata no Rio.
Os restantes são Filippe Poubel, famoso por “fiscalizações” surpresa em hospitais e postos de saúde e condenado por danos morais a indenizar um médico por uma dessas ações; Alexandre Knoploch, que já atirou contra um advogado durante uma briga em Brasília e deu um soco no rosto de um estudante durante audiência pública na Uerj; e Alan Lopes; porta-bandeira do projeto Escola sem Partido.
Como sugerem investigações e as críticas de autoridades, a Alerj vai muito além da antipolítica e da truculência de alguns membros. “A Alerj é o escritório central do crime organizado, de lá se controla tudo”, declara Vinícius George, delegado aposentado da Polícia Civil que assessorou deputados como o delegado Hélio Luz (PT, até 2002) e Marcelo Freixo (então no PSOL, hoje no PT), teve papel central nas CPIs das Milícias (2008) e das Armas (2011) e atuou na segurança institucional da Casa na gestão Ceciliano.
Fora de lá, foi chefe de operações de inteligência da Secretaria de Segurança e esteve à frente de delegacias especializadas, entre outras funções. “Metade de minha vida profissional foi na Alerj. Respeito a representação democrática, mas não posso compactuar com prática criminosa,” afirma o delegado, para quem o que ocorre hoje no Rio não é uma crise: “Esse é o nosso ethos”.
George diz que, além de casos já conhecidos de desvios nas áreas de educação e saúde, o controle das polícias (PM, Civil e Penal) passa pela Casa. “Os chefes de polícia são feitos lá. A Delegacia Fazendária [oficialmente subordinada à Polícia Civil] sempre foi da Alerj, poderia até funcionar lá.”
Nos últimos dias, paira sobre a Casa um clima de tensão pelos desdobramentos das investigações que levaram à atual crise e pelo rumor de que Bacellar estaria negociando uma delação premiada.
Impedido pelo STF de assumir, acossado pelos cortes de pessoal e pela devassa que o governador interino faz na gestão Castro, da qual foi secretário de Cidades, Douglas Ruas buscou contra-atacar. Uma das medidas do deputado –pré-candidato do PL ao governo do RJ– na presidência da Alerj foi criar uma comissão especial para analisar as despesas dos três Poderes e propor cortes de gastos.
Procurado pela reportagem desde 15 de maio, diretamente e via um assessor, Ruas de início disse que daria entrevista, mas, após sucessivas evasivas, parou de responder.
