O eleitorado virou à direita em alguns assuntos relativos a comportamento (mais nisso) e economia, segundo pesquisa Datafolha realizada neste mês de junho. São 44% à direita, 39% à esquerda —a margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.
Em 2022, ano final da pandemia e do governo de Jair Bolsonaro, eram 33% à direita e 49% à esquerda. Esse 2022 parece mais atípico. Em 2017, eram 40% à direita e 41% à esquerda. As mudanças em relação às pesquisas de 2013 e 2014 são pequenas.
Ao longo desses anos, os resultados parecem um lugar comum da teoria política, com os eleitores se aglutinando em torno do centro, ao menos quanto a essas questões do Datafolha.
No mais, a pesquisa suscita mais perguntas do que respostas. Indica que homens e mulheres têm preferências diferentes; classes de renda e educação também (mas não muito). As pessoas querem mais ou menos governo a depender do aspecto da vida. Difícil dizer se as respostas são de esquerda ou de direita —mais sobre isso mais adiante.
O levantamento capta algumas tendências de variação interessantes de preferências, como a respeito de “depender do governo” (cada vez menos), estabilidades majoritárias, como a rejeição à legalização das drogas (em torno de 83% desde 2013) e ligeira e contínua queda na crença de que a fé em Deus torna as pessoas melhores (ora em 76%).
A depender de como se olham os dados, se pode dizer que o eleitorado é centrista de modo estável.
O Datafolha fez 10 perguntas relativas a comportamento e 6 relativas a economia, sendo as respostas as alternativas “de esquerda” e “de direita”. Para cada resposta “de esquerda”, 1 ponto; “de direita”, 0 ponto.
No caso de comportamento, 5 respostas de esquerda classificam alguém como de centro; 6 e 7, como de centro-esquerda, mais que isso, de esquerda; 3 e 4 pontos classificam alguém como de centro-direita. Respostas de centro-esquerda e de centro-direita são agregadas às de esquerda e de direita “puras”.
Por que não agregar os centro-esquerdistas e direitistas ao centro? Fazendo tal conta, o eleitorado seria regularmente de centro desde 2013 (variando entre 72% e 81% do total, com média de 77%), com os “extremos” mantendo pesos históricos idênticos no período (11% tanto à esquerda quanto à direita).
Em economia, esse centro expandido teria em torno de 71% desde 2013. Em comportamento, em torno de 83% de 2013 a 2017 e de 77% em 2022 e 2026.
Na pesquisa de 2026, 56% dos homens estão à direita (soma de direita mais centro-direita) e 25% à esquerda; 47% das mulheres estão à direita, 32% à esquerda. As questões mais divisivas são a posse de armas (mulheres contra), a intervenção regulatória do Estado nos negócios das empresas (mulheres mais a favor) e a preferência de pagar mais impostos para ter serviços públicos de educação e saúde (mulheres mais a favor).
O “papel do Estado na economia” suscita respostas desconcertantes, mas significativas. Desde 2013, há uma tendência clara de preferir menos dependência pessoal do Estado. No caso, as alternativas são: “Quanto menos eu depender do governo, melhor estará minha vida” e “Quanto mais benefícios do governo eu tiver, melhor estará minha vida?”. Em 2013, havia empate, com 47% de escolhas para cada opção. Desde então, cresce a preferência por depender menos do governo, que chegou a 65% neste 2026.
No entanto, a inclinação antigoverno é bem menor quanto a impostos e serviços públicos. Por exemplo, 50% prefeririam pagar menos imposto e contratar saúde e educação privadas, ante 44% da alternativa (mais imposto, mais serviço público). No entanto, como os entrevistados interpretaram a frase “quanto menos eu depender do governo, melhor a minha vida”? Quer dizer apenas que se prefere ter mais renda adequada e estável? Ou um estigma crescente quanto a benefícios sociais? Ou mais “empreendedorismo” (que pode ser falta de emprego decente)?
O que quer dizer a preferência ligeiramente majoritária de pagar menos imposto e contratar saúde e educação privadas? Uma oposição em si ao serviço público ou uma crítica ao serviço público ora prestado? Não é possível saber. Logo, não dá para levar a ferro e fogo o direitismo ou esquerdismo dessas respostas, ainda menos se consideradas preferências sobre a atuação do Estado além do universo imediato da vida pessoal.
Para 69%, “o governo tem o dever de ajudar grandes empresas nacionais que corram o risco de ir à falência”. Para 71%, “o governo deve ser o maior responsável por investir no país e fazer a economia crescer”. Esse “estatismo” é de esquerda? Mas a direita realmente existente no Brasil, para nem mencionar as empresas, não gosta assim também da ajuda estatal?
Quanto ao motivo da pobreza, a variação intriga um tanto. “Boa parte da pobreza está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar” para 40%; “boa parte da pobreza está ligada à falta de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida” para 58%. Em 2017 e 2022, essa preferência mais “esquerdista” estava em 77% e 76%, respectivamente. Em 2014, 58%.
O que fez a resposta variar tanto? Em 2017 e 2022, o país saía de grandes recessões. A compaixão aumenta em tempos de crise? Como foram feitas apenas cinco pesquisas em 14 anos, é impossível tentar pensar os motivos da variação das respostas. Até a circunstância da semana do levantamento pode afetar resultados, tais como aqueles relativos a posse de armas, motivos do crime e penas para adolescentes.
Enfim, é preciso pensar em variações culturais, políticas e demográficas no prazo mais longo. Dezenas de milhões de pessoas da população que agora está na amostra tinham menos de 16 anos em 2013. Lideranças políticas e suas campanhas pelas redes mudaram. O que parece mais constante é uma aglutinação próxima do “centro” dessas perguntas da pesquisa.
