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Estrela reduziu número de funcionários de 10 mil para 1,5 mil em 30 anos
A fabricante de brinquedos Estrela afirmou, no pedido de recuperação judicial protocolado na Justiça na terça-feira (19), que o número de funcionários da empresa caiu de cerca de 10 mil no auge operacional, vivido em meados da década de 1980, para 1,5 mil atualmente.
A empresa ainda sustenta, no pedido de recuperação, que a redução do quadro de funcionários foi uma “medida extrema, porém indispensável à preservação mínima da atividade empresarial”.
O auge, vivido principalmente pela venda de brinquedos clássicos como Banco Imobiliário, Autorama, Falcon, Genius, Susi, Comandos em Ação e Super Massa, durou até o início dos anos 1990, quando a empresa lidou com o “primeiro marco relevante” do cenário de crise – entenda abaixo.
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Hoje, os 1,5 mil trabalhadores são divididos nas unidades de Itapira (SP), Três Pontas (MG) e Ribeirópolis (SE), sendo cerca de 500 apenas em Itapira, segundo a presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Instrumentos Musicais e de Brinquedos do Estado de São Paulo (Sindbrinq), Maria Auxiliadora dos Santos.
Funcionária há oito anos da Estrela, Maria Auxiliadora afirmou que a companhia garantiu, tanto em reuniões com trabalhadores quanto ao próprio sindicato, que não haverá demissões. O g1 tentou contato com a fabricante para confirmar a informação, mas não conseguiu resposta.
“Não vai atrasar, não vai dispensar, não vai cortar benefícios. Isso eles nos garantiram. É realmente uma crise que o setor passa e que me preocupa muito”, disse.
Imagem da fachada da fábrica da Estrela em Itapira (SP)
Reprodução/Google Maps
Está prevista uma assembleia do sindicato com os trabalhadores da fábrica de Itapira nesta sexta (22), na parte da manhã.
O Grupo Estrela, que inclui oito empresas — entre elas a Manufatura de Brinquedos Estrela S.A. e a Editora Estrela Cultural —, quer negociar R$ 109,1 milhões em dívidas por meio da recuperação judicial, sendo que R$ 3,2 milhões são trabalhistas.
Segundo a companhia, a medida tem como objetivo reorganizar o endividamento e preservar a continuidade das operações, além de manter empregos e geração de valor para clientes, fornecedores e acionistas.
🔎 A recuperação judicial é um mecanismo usado por empresas com dificuldades financeiras para renegociar dívidas e evitar a falência. Durante o processo, a companhia apresenta um plano de reestruturação para continuar operando, manter empregos e organizar os pagamentos aos credores.
Entenda a crise
Imagem de arquivo da linha de produção da fábrica da Estrela em Itapira (SP)
Reprodução/EPTV
Na petição, a Estrela cita que a crise da empresa é reflexo das dificuldades enfrentadas pelo setor de brinquedos. Cinco fatores foram apontados:
Abertura comercial no início dos anos 1990, o que aumentou a importação de brinquedos e a concorrência com produtos asiáticos;
Queda de faturamento, situação que teria forçado a empresa “a operar sob estrutura deficitária e com prejuízos acumulados”;
Mudanças nos hábitos de consumo das crianças e adolescentes, impulsionadas pelas plataformas digitais e jogos eletrônicos;
Concorrência desleal e contrabando de brinquedos, que, somados à competição asiática, pressionaram os preços e limitaram a capacidade de reinvestimento da companhia;
Manutenção de taxas elevadas de juros no Brasil (Taxa Selic).
A companhia disse que tentou medidas para superar essas dificuldades, como colaborações com outras marcas e lançamentos para colecionadores, mas foram infrutíferas.
A crise do setor também foi destacada por Maria Auxiliadora. Segundo ela, no início dos anos 1990 o estado de São Paulo tinha 45 mil trabalhadores em todas as fábricas de brinquedos, o que inclui a Estrela e as concorrentes. Hoje, são 4,5 mil.
“É a grande rotatividade, é brinquedo da China, é o problema com matéria-prima, é o fato de ser um setor sazonal, que contrata muito visando o Dia das Crianças e depois demite. Tudo isso leva a essa queda”, explicou.
A presidente do sindicato exemplificou a situação com o custo do quilo do plástico, que saltou de aproximadamente R$ 9, no início dos anos 2000, para mais de R$ 20.
“Estou muito apavorada, porque o setor está muito difícil. Nunca vi empresas dispensarem trabalhadores nessa época do ano. Fui a uma empresa agora que mandou embora 30 trabalhadores. Estamos em maio, é o início da época que as indústrias começam a contratar os temporários. Infelizmente, quem trabalha com plástico passa sufoco”, ponderou.
Reunião com trabalhadores
Imagem de arquivo da linha de produção da fábrica da Estrela em Itapira (SP)
Reprodução/EPTV
Maria Auxiliadora contou que a notícia de a Estrela ter entrado com pedido para recuperação judicial deixou trabalhadores apreensivos, por isso será realizada uma assembleia na sexta, em Itapira.
Ainda de acordo com a presidente do sindicato, mesmo com a crise, a Estrela não tem atrasado salários ou benefícios. Há alguns casos de atrasos no pagamento de rescisões, mas pontuais.
“O pessoal que ligou para mim fala que quer que eu explique o que está acontecendo, o que é a recuperação judicial, se vão demitir ou não. Então vamos lá para tranquilizar os trabalhadores e repassar aquilo que conversei com os diretores da empresa: que não vai haver demissões”, afirmou.
Marca ajudou a moldar o mercado brasileiro de brinquedos
ESTRELA: o Genius, clássico brinquedo que fez muito sucesso nos anos 80, não cai de moda e ainda tem a versão miniatura
Marta Cavallini/G1
Fundada em 1937, a fabricante de brinquedos Estrela se consolidou como uma das marcas mais conhecidas do setor no Brasil, com produtos que marcaram diferentes gerações de consumidores.
A empresa começou como uma pequena fábrica de bonecas de pano e carrinhos de madeira. Ao longo das décadas, ampliou sua linha de produtos e lançou brinquedos que se tornaram populares no país, como Banco Imobiliário, Autorama, Falcon, Genius, Susi, Comandos em Ação e Super Massa.
Nos anos 1940, a companhia lançou o Banco Imobiliário, que se transformou em um dos jogos de tabuleiro mais conhecidos do mercado brasileiro.
Em 1944, também se tornou uma das primeiras empresas do país a abrir capital na bolsa. Nas décadas seguintes, fortaleceu sua presença no setor com bonecas, brinquedos eletrônicos e carrinhos de controle remoto, acompanhando tendências do entretenimento infantil e da cultura popular.
Um dos episódios mais marcantes da trajetória da empresa ocorreu no fim dos anos 1990, com o encerramento da parceria com a fabricante americana Mattel.
Banco Imobiliário, um dos jogos de tabuleiro mais conhecidos do mercado brasileiro
Divulgação
Durante cerca de 30 anos, a Estrela produziu e vendeu a boneca Barbie no Brasil. Após o fim do acordo, a companhia relançou a boneca Susi, que estava fora do mercado havia mais de dez anos, em uma tentativa de recuperar espaço entre os consumidores brasileiros.
A empresa também enfrenta há anos uma disputa judicial com a americana Hasbro. A multinacional cobra royalties relacionados à venda de cerca de 20 brinquedos no Brasil, entre eles o tradicional Banco Imobiliário.
Nos últimos anos, porém, a companhia passou a enfrentar dificuldades financeiras em meio às mudanças no mercado de brinquedos, pressionado pelo avanço dos jogos digitais e pela transformação dos hábitos de consumo das crianças.
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