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As estratégias de trabalhadores da construção nos EUA para escapar de blitze de Trump: 'Tem que parecer menos latino, andar em carro de americano'

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As estratégias de trabalhadores da construção nos EUA para escapar de blitze de Trump: 'Tem que parecer menos latino, andar em carro de americano'


Tirar nomes em português do negócio e chegar de madrugada no trabalho são algumas das medidas tomadas em áreas onde há muita presença brasileira em Massachusetts. Brasileiros formam força de trabalho importante na construção civil em Massachusetts.
Getty Images via BBC
“Parecer” brasileiro, frequentar espaços brasileiros ou locais com concentração de brasileiros, ou ainda sair para trabalhar em áreas que mais empregam brasileiros têm sido um risco para imigrantes que vivem em situação irregular em Massachusetts, Estado que abriga grande parte da comunidade brasileira nos Estados Unidos.
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“A gente tem medo de colocar o pé fora de casa”, conta o capixaba Douglas Souza, de 37 anos, que trabalha com instalação de pisos desde que chegou ao país de forma ilegal, há 1 ano e meio. “A pior decisão da minha vida foi vir para cá.”
Na construção civil, que emprega milhares de brasileiros em Massachusetts, os imigrantes trabalham com a certeza de que são um dos alvos mais “fáceis” do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega que comanda as operações para prender pessoas que vivem em situação irregular no país.
É que eles são muito fáceis de serem identificados, explica Douglas, já que carregam ferramentas e andam em vans estampadas com nomes de suas empresas de construção e reformas de casas.
Brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil relatam que os empreendedores têm trocado os nomes adesivados nas vans de serviço para termos que pareçam menos latinos —retirando os sobrenomes ou palavras em português, por exemplo.
Outros preferem não usar nenhuma estampa que possa identificar o carro como de serviço —o que acaba atrapalhando o marketing e diminuindo a quantidade de potenciais clientes.
A ideia é tentar se disfarçar. “Se tem o nome brasileiro na van que veio me buscar, eu nem entro”, explica Douglas, normalmente subcontratado por empresas de colegas para prestar serviço nos pisos. Ele tem preferido se dirigir ao local do trabalho por conta própria.
“A gente tem que parecer menos latino. Tem gente preferindo andar em carros que americano gosta, não os que a gente, brasileiro, gosta”, diz Douglas, que incluiu na rotina acompanhar grupos de WhatsApp para saber se há notícias de operações do ICE e espiar a rua pela janela antes de decidir sair de casa, em Lowell.
No Estado, há relatos de blitz do ICE parando vans de companhias de construção em cidades como Milford e Everett, duas que concentram boa parte da comunidade brasileira, segundo conta o advogado Antonio Massa, que defende imigrantes na região.
Em um domingo do início de maio, uma ação no centro de Framingham, outro reduto brasileiro, apavorou fiéis na saída de igrejas evangélicas.
Dados de 2021 da pesquisa demográfica American Community Survey (ACS) apontam que 25,2% dos empregos ocupados por brasileiros em Massachusetts são no setor de construção —uma proporção duas vezes maior do que nos Estados Unidos como um todo, onde 12,5% dos trabalhadores são desta área.
Mais brasileiros são deportados dos Estados Unidos e desembarcam em MG
Desde 2010, os brasileiros formam a maior comunidade imigrante desse Estado, segundo o Instituto Diáspora Brasil, com base em Boston, a principal cidade da região. Em tamanho, ela só perde para a comunidade brasileira da Flórida.
Nas estimativas do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, cerca de 420 mil brasileiros (entre pessoas com situação imigratória regular e irregular) viviam na jurisdição do Consulado de Boston, em 2023.
Para Álvaro Lima, diretor do Instituto Diáspora Brasil, esse número faz com que a contribuição dos brasileiros hoje ao Estado vá além de geração de empregos e riqueza.
“Ela pode ser vista na revitalização de cidades e bairros abandonados que se tornaram locais vibrantes”, explica Lima, que enviou junto a outras instituições uma carta ao governo Lula pedindo mais apoio à comunidade nos Estados Unidos.
“Hoje, somos caçados como animais”, completa.
Do outro lado do país, em Los Angeles, na Califórnia, protestos estouraram após uma operação do ICE numa loja de departamento em construções, a Home Depot. É uma empresa conhecida por reunir trabalhadores imigrantes em situação irregular em busca de trabalho em construção.
Desde que assumiu, o presidente Donald Trump prometeu o maior programa de deportação de imigrantes da história dos Estados Unidos, sob o argumento de que uma imigração descontrolada estaria “envenenando o sangue” do país, “tomando vagas de emprego” de americanos e pressionando serviços públicos.
Mesmo que inicialmente tenha prometido a perseguição a criminosos condenados, o governo ampliou seu escopo para todos os imigrantes, algo já assimilado pela comunidade brasileira.
No início de junho, cerca de 51 mil imigrantes sem documentos se encontravam detidos pelo ICE, maior número já registrado desde setembro de 2019.
Mas a Casa Branca já declarou esperar que o ICE possa atingir até 3 mil prisões por dia, o que representa um aumento significativo em relação às cerca de 660 detenções diárias, verificadas durante os primeiros cem dias do segundo mandato de Trump.
Dados a que o jornal Boston Globe teve acesso mostram que esse objetivo de aumentar as detenções do governo Trump impulsionou as operações em áreas brasileiras de Massachusetts nas últimas semanas.
Só em maio foram quase 1,5 mil prisões, metade delas de pessoas sem antecedentes criminais, em cidades como Milford e Worcester, onde há presença significativa de brasileiros.
‘Cometi um grande erro’
Mulher imigrante é presa em operação do ICE enquanto trabalhava numa fábrica de Nebraska, em junho de 2025.
Reuters via BBC
Natural de Vitória (ES), Douglas Souza entrou nos Estados Unidos pela fronteira com o México, fazendo uma dívida de R$ 200 mil junto da esposa com um coiote —nome dado a contrabandistas que vendem as travessias pelo rio Grande.
No Brasil, o capixaba conta que tinha uma renda média mensal de R$ 10 mil atuando na aplicação de pisos durante 14 anos. Mas diz ter sido “aliciado” nas redes sociais pela promessa de ganhos milionários.
Douglas avalia que hoje tem o mesmo rendimento — convertendo em reais — que tinha no Espírito Santo, fazendo o mesmo serviço.
“Cometi um grande erro vindo para cá”, reflete. O capixaba se entregou na fronteira ainda no governo Biden e entrou com pedido para ficar no país. Agora, espera andamento do seu processo na Justiça para saber se poderá permanecer ou não no país.
Mesmo com processo já em andamento, ele teme ser pego pelo ICE. “Estão prendendo todo mundo, só depois veem a situação de cada um”.
Uma vez nos Estados Unidos, o brasileiro chegou a torcer pela vitória de Donald Trump nas eleições de 2024.
“Achei que ia melhorar, criar mais serviços, mesmo que mandasse alguns embora. Mas, na minha visão, está causando caos, já está faltando trabalho”. Ele espera pagar o restante dos R$ 100 mil que deve ao coiote e voltar ao Brasil em 2026.
O mineiro Tiago Machado, de 42 anos, fiscal de obras em Boston, diz que há uma diminuição na oferta de trabalho no setor, diante das incertezas dos próprios cidadãos americanos e imigrantes sobre o futuro, em meio às deportações e a guerra tarifária do governo Trump, especialmente com a China.
“As pessoas não querem construir, criar dívidas”, diz Machado.
Muitas cidades de Massachusetts, onde Douglas e Tiago moram, são consideradas “santuários”. Ou seja, limitam a cooperação com o governo nacional na aplicação da lei de imigração. Isso não quer dizer, porém, que o ICE não pode agir, como está fazendo.
Em outros Estados, como a Flórida, a cooperação entre autoridades locais e nacionais é mais presente.
O gaúcho Fernando Santos, 47 anos, é dono de uma empresa de reforma de casas na região de Miami e relata que agentes de trânsito estão parando as vans conduzidas por imigrantes a caminho do serviço.
“Isso já acontecia antes, de eles mirarem nas vans, mas agora é outra dimensão”, diz Santos.
Para driblar a ofensiva do governo, o brasileiro tem mudado maneiras de trabalhar. Ao volante das vans, Santos tem colocado motoristas contratados exclusivamente para esse trabalho e que tenham o status migratório regular. Assim, uma vez parado pela blitz, pode ser liberado. É um gasto a mais para a empresa, já que antes os próprios trabalhadores da construção dirigiam o carro.
A situação é pior, diz Santos, nas estradas em direção a grandes cidades como Miami ou em áreas da Flórida com menor presença da comunidade latina.
“Meus funcionários estão todos com medo. Trabalham porque têm que trabalhar. No fim de semana, muitos nem saem de casa”, conta Santos.
Só no último mês, dois de seus funcionários, ambos da Colômbia, foram detidos.
A BBC News Brasil questionou o ICE sobre o número de brasileiros detidos nos últimos meses, mas não obteve resposta. O Itamaraty também não divulgou esses números.
Manifestantes apoiam imigrantes em Boston.
John Tlumack/The Boston Globe/Getty Images via BBC
Comércios de brasileiros vazios
Com a tensão em alta entre a comunidade brasileira, lojas e restaurantes típicos do país têm sentido os efeitos do cerco aos imigrantes.
Há 33 anos nos EUA, o gaúcho Marcelo Gomez, 58 anos, atua importando produtos que agradam brasileiros, vendendo de produtos de limpeza a biquínis para cerca de 300 lojas no país.
Neste junho, ele diz estar vendendo apenas 15% do que normalmente vendia.
“Pessoas com medo guardam dinheiro, não compram. Está sendo pior do que a crise de 2008”, relata Gomez.
“O meu cliente não está nada bem, então eu não estou nada bem. As lojas estão vazias, o ICE já fez batida em lojas de brasileiros, e isso cria um estigma para elas, ninguém quer ir mais.”
Dono de um restaurante brasileiro em Norwood, Massachusetts, Gabriel (nome trocado a pedido do entrevistado) relata que já sente uma queda de 30% no movimento, numa época em que os brasileiros estariam consumindo mais, já que está perto do início do verão.
O clima de apreensão não é só entre os clientes, mas também entre os funcionários, diz Gabriel, que carrega no porta-luvas do carro cinco documentos que o autoriza ser guardião legal de filhos de funcionários caso eles sejam detidos pelo ICE.
“O maior medo é essas crianças pararem em um abrigo”, conta Gabriel, também dono de uma marmoraria na região.
Alguns de seus funcionários, conta, estão optando em acordar mais cedo para chegar ao trabalho antes de o sol nascer e evitar eventuais operações matutinas do ICE.
“Eles acham que assim vão evitar serem pegos.”
Funcionários do Itamaraty relataram à BBC um aumento substancial no pedido de emissão de certidões de nascimento e passaportes atualizados para brasileiros e seus filhos, devido ao medo de famílias serem separadas.
O Consulado de Boston é um dos que mais viram os pedidos dispararem, juntos aos de Nova York, Washington D.C. e Hartford.

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