Passada a Copa, em que fomos eliminados pela Noruega, eis que o treinador Carlo Ancelotti manifestou-se. Disse ele, com o apoio da CBF e contrato milionário até 2030, que seguirá. Deverá manter alguns jogadores do grupo que disputou o torneio e investir em atletas mais jovens.
Segundo pesquisa Datafolha, apenas 22% atribuem à comissão técnica a desclassificação, enquanto 47% culpam os jogadores. Além disso, 51% consideram que o italiano deve prosseguir. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Ancelotti tem algumas atenuantes a seu favor. Teve pouco tempo para se adaptar e trabalhar, e jogadores importantes sofreram lesões. Cometeu, entretanto, erros consideráveis na Copa, a começar pela insistência com ex-jogadores em atividade, como Casemiro e Neymar. Equivocou-se em aspectos da convocação, enrolou-se, já na estreia, na escalação e fez substituições muito mal calculadas na partida em que fomos eliminados.
Vi com simpatia a contratação de Carletto, não há treinadores brasileiros que me entusiasmem e não sou um Policarpo Quaresma em matéria de comissão técnica, mas devo dizer que fiquei com uma ponta de decepção em campo e também fora dele. Imaginava que Ancelotti voltaria ao Brasil para uma coletiva na qual pudesse falar da derrota, de sua trajetória brasileira e da atuação da seleção na Copa, antes de sair para suas férias.
Faz pouco, o comentarista PVC disse no UOL que Ancelotti não merece ficar, mas seria melhor sua permanência tendo-se em vista o período que precedeu sua contratação, marcado por um rodízio bizarro de treinadores e completa desorganização.
É uma opinião com a qual tendo a concordar, embora, em tese pelo menos, fosse possível trocar de treinador agora e ter, sob nova administração, quatro anos de trabalho de renovação da equipe para 2030.
Ocorre que uma demissão de Ancelotti seria precipitada e muito provavelmente nos devolveria à inércia caótica de contratações e dispensas que é preciso interromper. A CBF é um centro de excelência em matéria de incompetência e situações nebulosas.
O técnico, todavia, mostrou qualidades de temperamento ao procurar conhecer o país e a realidade de seu futebol. Quis permanecer e tem um passado de vitorioso.
Resta saber que Ancelotti teremos agora, quando o grau de exigência do torcedor e da mídia vai aumentar. Não bastará ser simpático e fazer anúncio de cerveja. O treinador está devendo. A própria renovação antecipada de seu contrato para 2030 está na berlinda.
Será preciso demonstrar sensibilidade para perceber o que o torcedor quer —e ter humildade para rever atitudes e saber lidar com a inevitável pecha de teimoso. Tem experiência para isso. Seria também louvável , com sua longa vivência europeia, se conseguisse posicionar-se como um vetor de modernização no que diz respeito à formação de talentos em posições carentes e às péssimas condições das competições no Brasil, com calendário e gramados inaceitáveis.
Talvez seja sonhar demais. O Brasil foi considerado o país do futebol não graças, mas apesar de seus dirigentes
Obviamente que os resultados vão falar mais alto. Os inacreditáveis amistosos de setembro já começam a contar. Depois, eliminatórias e Copa América serão os grandes testes.
