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A paulistana filha de faxineira e pintor de paredes que se tornou artista plástica mundialmente reconhecida: 'Não acredito em fazer dinheiro e sair do país'

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A paulistana filha de faxineira e pintor de paredes que se tornou artista plástica mundialmente reconhecida: 'Não acredito em fazer dinheiro e sair do país'




Rosana Paulino, a filha de faxineira que se tornou artista plástica mundialmente reconhecida
Raoni Maddalena / BBC News Brasil
No último Dia da Consciência Negra, Rosana Paulino chegou ao Museu de Arte do Rio de Janeiro, o MAR, não apenas como uma artista visual consagrada, mas também como curadora.
Era o lançamento de uma série de minidocumentários sobre 20 artistas brasileiros negros e negras que desenvolvem trabalhos “de excelência”, como ela destacou ao lado do diretor Fabiano Maciel.
“Isso não é uma onda passageira. São artistas muito bem formados, com produções muito fortes e bem fundamentadas e que simplesmente não eram conhecidos”, ressaltou Paulino perante a plateia. “Estamos dentro de um momento histórico.”
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O momento prolífico vem de caminhos abertos pela própria artista. Filha de um pintor de paredes e de uma faxineira, a paulistana é referência na arte brasileira e representa o país na 61ª Bienal Internacional de Veneza, ao lado da carioca Adriana Varejão.
No palco do MAR, estava à vontade no papel de decana da arte afro-brasileira. Voltar holofotes para o trabalho de outros artistas simboliza a generosidade dos seus 30 anos de carreira — e o contraste com o início de sua trajetória.
“Trabalhei praticamente dez anos sozinha quando comecei”, conta a artista e educadora de 59 anos à BBC News Brasil, lembrando a ausência de artistas negros na cena contemporânea em meados dos anos 1990.
“Agora, a proliferação de artistas, críticos e curadores [afro-brasileiros] que temos… Esse é um panorama que eu não esperava ver em vida”, comemora.
“Falta muito? Falta. Mas é muito encorajador ver tantos nomes.”
‘Comigo Ninguém Pode’, nome da exposição do Pavilhão do Brasil em Veneza, surge da obra à direita, da série Senhora das Plantas, de Paulino. À esquerda, Monocromo Maragogipinho, de Adriana Varejão
Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
Paulino vem enfileirando feitos nos últimos anos. Teve exposições individuais em cidades como Buenos Aires, Bruxelas e Nova York, onde descortinou um painel de nove metros de altura na High Line.
Teve obras compradas pela Tate Modern, em Londres, e pelo MoMA (o Museu de Arte Moderna de Nova York), além de ter recebido prêmios como o Munch Award (que a destacou como “voz de liderança do feminismo negro” em sua primeiríssima edição, em 2024) e o Jane Lombard de Arte e Justiça Social (em reconhecimento por História Natural, de 2016, livro em que explora as histórias entrelaçadas da ciência e da violência racial).
Em um país com mais de 55% da população negra e parda, fingir que a visualidade brasileira é só aquilo que está nos museus, seguindo os critérios europeus ou o americano, é uma “sandice”, diz Paulino.
“Não podemos ter um sistema de artes visuais como tínhamos, ou ainda temos. Isso é uma aberração. O Brasil é um país que não olha para si mesmo, que não se enxerga. A entrada de negros e negras no panorama do país é salutar. Temos uma visualidade muito forte, e boa parte vem das produções negras e indígenas.”
A instalação Tecelãs (2003) recebe os visitantes na entrada do Pavilhão do Brasil em Veneza, com pequenas esculturas feitas com faiança, terracota, algodão e fios sintéticos
Rafa Jacinto / Fundação Bienal de São Paulo
Comigo Ninguém Pode
Ao lado de Adriana Varejão, Rosana Paulino comanda o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, em uma edição composta apenas de mulheres, sendo duas negras — a curadoria deste ano coube a Diane Lima, a primeira mulher negra alçada a este cargo.
“É uma oportunidade de discutir a formação do país de uma maneira sofisticada, apresentando para o mundo, junto com a Varejão, um Brasil diferente, que muita gente não sabe que existe e que é fortemente marcado pela questão negra e pela relação com a natureza”, diz Paulino.
“Colocar essas discussões em um palco privilegiado como Veneza é realmente fantástico.”
O título da mostra, “Comigo Ninguém Pode”, vem de uma das obras de Paulino, da série Senhora das Plantas, em que retrata mulheres com galhos, folhas e raízes em plena metamorfose com plantas de poder.
Popular e com potencial tóxico, a comigo-ninguém-pode fala de “proteção, resiliência e estratégias de sobrevivência em contextos hostis”, descreve Paulino.
Não é a primeira vez de Paulino na Bienal de Veneza. Em 2022, ela foi convidada pela curadoria internacional para a mostra principal.
“É muito simbólico que Rosana esteja no pavilhão brasileiro depois de estar na exposição principal”, diz Igor Simões, que foi cocurador de sua mostra individual no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, o Malba, em 2024.
“A curiosidade estrangeira veio antes de o Brasil entender o quão gigante é a sua produção. Tê-la no pavilhão faz crer que o país esteja interessado em olhar para si mesmo, e para a matéria da qual é feito.”
Trabalhando com desenhos, pinturas, bordados, gravura, colagem, escultura e instalações, Paulino desenvolve obras que refletem sobre a posição da mulher negra, a ancestralidade e as marcas do colonialismo e da escravidão na sociedade brasileira.
Ela desconstrói imagens e teorias racistas de pseudociências que propagavam a inferioridade do negro para justificar a escravidão. “O racismo científico foi pouco estudado, mas é fundamental para entender a desumanização e a desvalorização desse corpo, a ponto de ser totalmente descartável”, afirma.
“Sem isso, a gente não entende como a polícia mata do jeito que mata. A gente não entende como 117 pessoas foram mortas no Rio de Janeiro naquele massacre [nos complexos do Alemão e da Penha]. A morte do cachorro Orelha causou mais comoção do que 117 mortos enfileirados.”
Em Aracnes, Paulino costura retratos de mulheres negras com fios que remetem a teias de aranhas
Rafa Jacinto / Fundação Bienal de São Paulo
Entrelaçando artes e biologia
Paulino nasceu e cresceu na Freguesia do Ó, na Zona Norte de São Paulo, à época ainda um bairro rural, onde a mãe criava galinhas e mantinha uma horta. O pai começou a vida descarregando caminhão de açúcar, até aprender o ofício de pintor de paredes. A mãe foi faxineira durante boa parte da vida e bordava para complementar a renda.
“Nunca passamos fome, mas não tínhamos luxos”, lembra Paulino, uma entre quatro irmãs. Ela passou uma infância de interior, brincando na rua, subindo em árvore, fazendo experimentos com cupim, coisa de quem logo cedo decidiu que iria estudar biologia, e juntou dinheiro na adolescência para assinar a revista Ciência Hoje.
Ao lado do fascínio pela natureza, havia o gosto pelo que podia criar com as mãos. Com barro tirado de um braço de rio perto de casa, sua mãe modelava mesinhas e cadeiras para as bonecas das filhas, que entravam no jogo. Adoravam desenhar e brincavam com personagens que criavam no papel.
“Uma coisa que poderia ser um empecilho, que era falta de dinheiro para comprar brinquedo, ela acabou transformando em um motor para criatividade”, diz Paulino sobre a mãe, que até então só havia completado a terceira série, mas tinha forte intuição para educação. “Acho que o germe da escolha pela profissão de artista vem muito da minha infância.”
Quando a mãe descobriu um curso de desenho no Liceu de Artes e Ofícios, incentivou a filha então com 15 anos a se matricular. Chegou ao vestibular com o coração bifurcado. Passou em biologia na Unicamp e em artes visuais na Universidade de São Paulo (USP). Nunca fez o primeiro curso, mas acabou entrelaçando os dois campos, trazendo a natureza para sua obra.
Paulino chegou ao doutorado na Escola de Comunicações e Artes Visuais da USP e se especializou em gravura no London Print Studio, em Londres, com uma bolsa da Capes, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
A temporada na Inglaterra foi essencial para acompanhar o que estava acontecendo e sendo debatido fora do país, em uma época em que a internet engatinhava.
Na primeira semana do bacharelado na USP, em uma das primeiras aulas, ouviu do professor: “Esqueçam tudo que vocês aprenderam. Agora vocês serão artistas eruditos”.
“Tá, agora eu faço o quê? Tiro minha pele e largo lá na porta?”, ela rememorou no Canal Curta!. “Porque não é tema, é vivência. Não é tema, é necessidade. Não é tema, é ancestralidade.”
A escultura Crisálida (2026) foi feita por Rosana Paulino especialmente para a Bienal de Veneza, em bronze, dando forma ao desenho de uma gravura que fez 20 anos atrás
Rafa Jacinto/ Fundação Bienal de São Paulo
Abre-alas da arte afro-brasileira
Depois de desbravar os espaços elitizados da arte contemporânea, Paulino ajudou a puxar uma geração de artistas negras e negros, muitos amadrinhados por ela, que carinhosamente a chamam de “dinda”.
Alguns são retratados nos minidocumentários da série Raiz, do Canal Curta!, como o artista Dalton Paula e o curador Igor Simões.
Simões ressalta seu papel de professora, orientadora e abre-alas para inserir “vozes negras no cubo branco da arte brasileira”, tomando emprestado o nome do ciclo de debates que o aproximou de Paulino, uns 15 anos atrás, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul — e que acabou virando um marco em sua carreira e ensejando sua tese de doutorado.
“Rosana nunca se contentou com a possibilidade de ser a única negra da sala. Ainda mais uma sala repleta de pensamentos, ideologias e imaginários brancos. Ela fez de sua trajetória uma porta aberta para que outras pessoas pudessem chegar”, afirma o curador, que agora comanda uma mostra de artistas afro-brasileiros em Nova York.
Paulino conta que optou por não ter filhos porque não queria renunciar à carreira. Foi então que os afilhados começaram a chegar. “Eles que me escolhem como madrinha, não sou eu que adoto”, diverte-se.
Ela responde como a orientadora generosa que muitos pós-graduandos sonham em ter, mostrando o caminho das pedras. “Eu digo: ‘Você vai ler isso, você precisa falar com fulano e beltrano, você precisa ir para tal museu, você precisa desenvolver isso no seu trabalho’. Começo a dar uma série de referências de artistas e teóricos. Uns dizem que sou a mãe de santo das artes”, conta ela, filha de Ogum com Iansã.
Paulino desenvolveu Parede da Memória ainda como estudante na USP. A obra foi decisiva em sua carreira, hoje parte do acervo da Pinacoteca de São Paulo
Isabella Matheus
‘Não acredito em fazer dinheiro e sair do país’
O reconhecimento na esfera internacional proporcionou a Paulino “muitas cantadas” para sair do país, “sobretudo de universidades americanas”.
No entanto, ela permanece com os pés fincados na Zona Norte paulistana, onde nasceu. Seu ateliê, uma casa de três andares com luz natural e paredes verde claro, fica em Pirituba, bairro de classe média cortado pela Linha 7 do Trem Metropolitano de São Paulo.
“Não acredito em fazer dinheiro e sair do país, ou em fazer dinheiro e sumir da minha região”, diz ela.
Em Pirituba, ela comprou uma casa em frente ao seu ateliê. Basta atravessar uma praça, onde há sempre crianças brincando e onde sua equipe distribui cachos de bananas que crescem no quintal.
Sua ideia é transformar o espaço em um centro de pesquisas para receber estudantes e jovens artistas, com uma biblioteca especializada em arte, diáspora, questões afro-brasileiras e bibliografia da América Latina, Ásia, Oriente Médio, como uma tentativa de preencher lacunas de uma formação centrada na Europa e nos Estados Unidos.
“Tenho que ter uma ação comunitária além da produção de arte, senão minha vida não teria sentido”, afirma.
No amplo quintal da nova casa, há espaço para suas plantinhas e uma horta que quer plantar, mas ainda não teve tempo, e um horizonte livre com vista para o verde da mata e o Pico do Jaraguá.
“O meu temperamento sempre foi assim, muito inquieto. Essa coisa de ficar parada, reclamando, chorando, não funciona comigo”, diz Paulino. “Não que transformar o status quo seja fácil. Não é.”
“Mas temos que arregaçar as mangas e ir em frente”, ela afirma. “Gosto de mudança. Gosto de ver o país se olhando, se reconhecendo e avançando.

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