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Eleições no Peru: como crises políticas levaram país a ter uma 'economia zumbi'

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Eleições no Peru: como crises políticas levaram país a ter uma 'economia zumbi'




Especialistas acreditam que o crescimento da economia peruana poderia ser maior
Ernesto Benavides via Getty Images
O Peru, país que vai escolher seu novo presidente em eleições neste domingo (12), foi um exemplo de gestão macroeconômica por anos.
Apesar da permanente instabilidade política e das constantes mudanças de presidente nos últimos anos, o país conseguiu manter suas contas públicas saneadas, atrair investimentos estrangeiros significativos, continuar crescendo e manter o valor da sua moeda.
A aparente impermeabilidade da sua economia e o vaivém da política peruana são admirados e invejados por outros países latino-americanos, castigados pelas turbulências financeiras.
E contribuíram para prolongar o relato de sucesso que o país começou a escrever no início deste século, quando reformas econômicas agressivas superaram sua grave crise e definiram as bases para décadas de expansão do PIB.
Mas especialistas alertam que nem tudo o que reluz é ouro. E, apesar dos seus indicadores positivos, os peruanos pagam um preço pela instabilidade política e pelas constantes mudanças de governo.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
“Esta questão de que a economia e a política do Peru andam por cordas separadas é uma meia verdade. Existe um ponto a partir do qual a política afeta a economia”, explica à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, o economista Armando Mendoza, do Centro Peruano de Estudos Sociais.
Para ele, o Peru possui há tempos “uma economia que caminha em piloto automático, em modo zumbi”.
No domingo, os eleitores peruanos irão eleger seu novo presidente e o Congresso Nacional.
Segundo a última pesquisa divulgada pelo jornal peruano El Comercio, os dois favoritos para passarem ao segundo turno são Rafael López Aliaga, ex-prefeito de direita e conservador da capital, Lima; e Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, condenado por violações aos direitos humanos, e que tenta virar presidente há quatro eleições.
Analisamos aqui os impactos das tormentas políticas ocorridas nos últimos anos para o país.
As bases da fortaleza
A economia peruana conta com pontos fortes estruturais que a beneficiaram ao longo do tempo.
Trata-se de uma economia aberta que, de forma geral, vem oferecendo segurança jurídica aos investidores nos últimos anos.
Diferentemente de outros países do continente, habituados a enfrentar problemas financeiros, o Peru tem uma das moedas mais estáveis da América Latina, o sol.
Um fator fundamental é a gestão do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP).
Graças à autonomia concedida a ele pela Constituição do país, o organismo se mantém à margem das disputas políticas e realizou uma gestão orientada por critérios técnicos.
Os especialistas reconhecem que este é um dos fatores fundamentais para a estabilidade macroeconômica do país.
‘Oportunidade perdida’
Nas duas primeiras décadas do século 21, o Peru viu seu Produto Interno Bruto (PIB) crescer em cerca de 4% ao ano. E, em alguns anos, o país chegou a superar a barreira dos 10% de crescimento interanual.
Mas o ritmo de crescimento vem diminuindo desde 2018, com a renúncia do então presidente Pedro Pablo Kuczynski, o PPK. Ela deu início a uma caótica sucessão de presidentes — oito, desde então.
Se ignorarmos os anos da pandemia de covid-19, a economia peruana cresceu em média cerca de 2,3% desde 2022. Segundo os especialistas, este índice está longe do seu potencial.
“A economia peruana continua crescendo, mas existe um custo de oportunidades perdidas”, explica Mendoza. “Se tivéssemos políticas sustentadas, não estaríamos crescendo em 3%. Provavelmente, estaríamos crescendo em níveis de 5 ou 6%.”
Seguindo esta mesma linha, o diretor do Instituto Peruano de Economia e membro da diretoria do BCRP, Diego Macera, declarou à BBC que o Peru deveria ter se beneficiado mais da atual conjuntura de altos preços do ouro e do cobre, duas das suas maiores matérias-primas de exportação.
“Com os preços internacionais atuais e a macro estabilidade que vivenciamos, não há motivo para não termos crescido mais de 4,5%, se nossos governos tivessem sido razoavelmente previsíveis e competentes”, explica ele.
Tudo isso explica por que, apesar dos anos de crescimento, a economia peruana se expandiu abaixo do esperado e o país não conseguiu retornar aos níveis de pobreza e emprego formal anteriores à pandemia.
Em 2019, 20% dos peruanos viviam em situação de pobreza e este índice atingiu 27,6% em 2024. E o Instituto Nacional de Estatísticas e Informática do país indica que a renda real formal em 2024 também não retornou aos níveis de 2019.
O exemplo mais claro do preço que os peruanos pagam pela sua instabilidade política é o ano de 2023, depois que o então presidente Pedro Castillo foi destituído e preso por tentativa de golpe de Estado, gerando protestos em todo o país.
Naquele ano, a economia do país se retraiu em 0,55%.
“Foi um ano em que ficou muito claro que o desajuste político afetou o andamento da economia”, indica Mendoza.
O preço do ‘carrossel político’
Para Mendoza, quando o Peru entrou no “carrossel político” dos últimos anos, “passou a ser impossível ter políticas econômicas sustentadas”. E Macera recorda que “os presidentes, em média, não chegaram a ficar dois anos no cargo”.
O atual presidente, José María Balcázar, foi eleito pelo Congresso no último dia 18 de fevereiro, substituindo José Jerí, que foi destituído depois de pouco mais de quatro meses de mandato.
Se os presidentes duram pouco, menos ainda os ministros. “Um ministro da Economia dura hoje, em média, sete ou oito meses”, destaca Macera.
“Com esta volatilidade, é muito complicado ter políticas de Estado razoavelmente consistentes e fazer com que o setor privado saiba com clareza quem são seus interlocutores dentro dos ministérios.”
No Peru, os presidentes duram pouco. O atual mandatário, José María Balcázar, assumiu o cargo em fevereiro e precisará sair em julho.
Jorge Cerdán via Getty Images
Para setores que exigem grandes investimentos e anos de planejamento, como a mineração, que é um dos principais setores da economia do Peru, saber ao certo quais serão as políticas futuras do país é fundamental na hora de decidir e executar investimentos.
“Como você pode fazer um planejamento se os ministros e suas equipes mudam a cada poucos meses?”, questiona Macera.
Além disso, o ciclo eleitoral deste ano agrava ainda mais as incertezas que se transformaram em rotina no Peru.
Em poucos meses, serão realizadas eleições gerais (para escolher o presidente e o Congresso) e pleitos locais e regionais, para eleger prefeitos e governadores.
A julgar pelo descontentamento dos eleitores, refletido nas pesquisas, é provável que se decida mudar a maioria dos governantes.
Todas as pesquisas indicam que os peruanos consideram que a corrupção é um dos principais problemas do país.
A vida política peruana foi marcada, nos últimos anos, pelos escândalos que custaram o cargo de quase todos os últimos mandatários, um após o outro.
Mendoza lamenta que “segmentos significativos do Estado tenham sido capturados e depredados pelas máfias”. Para ele, “já não se trata apenas da corrupção tradicional, mas da criminalidade vinculada ao crime comum”.
E as atividades delituosas trazem impactos econômicos.
“Existe uma ampla agenda pendente de combate à mineração ilegal”, segundo Macera.
“Calculamos que, no ano passado, tenha havido cerca de US$ 11,5 bilhões [cerca de R$ 58,2 bilhões] de exportação ilegal de ouro, um número similar ao exportado pela agroindústria peruana em 2014.”
O que pode acontecer agora
Todas as previsões estão, agora, à mercê do que vier a acontecer com a guerra no Oriente Médico, que já provocou o aumento dos preços do petróleo e poderá causar uma recessão mundial, caso não seja encerrada rapidamente.
O Banco Central peruano calcula que o PIB do país irá crescer em cerca de 2,9% este ano.
Novamente, um dado de crescimento positivo que, se confirmado, colocaria o Peru como a segunda economia com maior crescimento do continente. Mas o cenário pode variar, em caso de prolongamento do conflito no Oriente Médio.
O Peru continua se beneficiando dos altos preços dos metais, da estabilidade da sua moeda e da solidez das suas contas públicas. E se espera que os investimentos e o emprego formal continuem aumentando.
A diretoria do Banco Central peruano também deverá ser renovada este ano, em outra medida importante.
“O Banco tem grande independência nas suas operações, mas a escolha dos membros da diretoria dependerá do novo presidente e do novo Congresso”, indica Macera.
Ele espera que haja um consenso para manter Julio Velarde como presidente do Banco Central. Ele está à frente da instituição há 20 anos e é amplamente considerado uma das garantias da solidez macroeconômica peruana.
Mas isso ainda aguarda definição, como quase tudo no Peru, neste ano eleitoral.
Os governantes que sairão das urnas terão o desafio de fazer com que a economia peruana abandone seu “modo zumbi” e passe a trabalhar a todo vapor, em prol da coesão social e do progresso dos seus cidadãos.

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