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Do Oeste Paulista para o mundo: ator de ‘Avenida Brasil’ relembra trajetória, soma prêmios e conta planos para o futuro

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Do Oeste Paulista para o mundo: ator de ‘Avenida Brasil’ relembra trajetória, soma prêmios e conta planos para o futuro




‘A gente vai descobrindo caminhos’: Vicentini Gomez fala sobre trajetória
A vida e o prazer de viver movem a rotina do artista múltiplo Vicentini Gomez. Conhecido por viver personagens como Serjão, em “Avenida Brasil”, o delegado Cavalcante, em “Joia Rara”, e Graça Aranha, em “Um Só Coração”, produções da Rede Globo, o ator, diretor, cineasta, escritor e mímico soma dezenas de premiações nacionais e internacionais.
Na última semana, o artista voltou a ganhar destaque fora do Brasil. Em maio, o filme “Doctor Hypotheses”, título em inglês da produção, conquistou prêmios em festivais realizados em Lyon, na França, e em Lisboa, em Portugal, incluindo categorias como “Melhor Roteiro”, “Atuação” e “Projeto ligado aos Direitos Humanos”.
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“O ser humano não pode ficar sem fazer alguma coisa, se manter ativo. Se não, você não tem equilíbrio, né? Isso é fundamental”, afirma em entrevista ao g1.
Com quase 50 anos de carreira e filho de agricultor, Vicentini nasceu em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, especificamente na travessa da Vila Marcondes, em um sobrado de madeira na beira dos trilhos de trem.
Com quase 50 anos de carreira, Vicentini Gomez nasceu em Presidente Prudente (SP)
Stephanie Fonseca/g1
O interesse pela arte surgiu cedo. “Na idade escolar, antes de completar sete anos, eu fui para Londrina, na casa de uns amigos japoneses, porque fui estudar. Lá no colégio londrinense, eu tive contato pela primeira vez com o teatro, porque a professora perguntou se eu gostaria de participar de um espetáculo sobre a Páscoa. Eu perguntei: ‘O que é teatro?’. Até hoje eu fico tentando descobrir ainda, né? Estou completando 50 anos de carreira”, conta, sorrindo.
Foi também nesse período que Vicentini começou a escrever. Ele conta que na época o aprendizado era mais “puxado” e não tinha outra comunicação com os pais a não ser a de “mandar uma cartinha”. “E esse processo da literatura, eu sempre tive muita, muita sorte, porque eu tive professores que sempre me estimularam à leitura”, diz.
No segundo ano, em 1965, ele voltou a Prudente e estudou na antiga escola Arruda Mello. “Eu só visitava meus pais nas férias escolares. Meu pai vinha me buscar nas férias escolares para ir ao Paraná. Ele morava nessa época em Porecatu. Depois, meu pai comprou uma fazenda lá em Peabiru, entre Campo Mourão e Maringá”, lembra.
A escrita continuou na vida do artista. Morando já em Alumínio, próximo à cidade de São Paulo, com 14 a 15 anos, Vicentini começou a trabalhar no Grupo Votorantim, com José Bento de Souza, correspondente de um jornal de Sorocaba.
“Como eu sempre escrevia bem, ele me propôs que eu escrevesse as colunas da cidade e ele só fazia as correções. Então isso foi um grande aprendizado para mim. E o teatro sempre foi uma continuidade”, conta ao g1.
Anos depois veio a universidade. Gomez ingressou no curso de Direito, mas o teatro continuou em sua vida.
Vicentini lembra que, na universidade, era do Centro Acadêmico e levava filmes, ocasião em que teve problemas. “Eu exibi lá, em 1975, em Mogi das Cruzes, o ‘Sacco e Vanzetti’, e a polícia quebrou o DCE para pegar a cópia, e eu consegui fugir com a cópia da fita VHS. Era ditadura, era um filme proibido no Brasil. Então a arte sempre esteve enraizada. Eu continuei fazendo teatro na universidade, no colegial. E aí eu fui estudar teatro”, conta.
Vicentini Gomez interpretando o delegado Cavalcante, em Joia Rara (à esquerda), e o Serjão, em Avenida Brasil (à direita)
Reprodução/TV Globo
Carreira meteórica
Vicentini deixou o curso de Direito no segundo ano e foi terminar o curso de Teatro que já fazia. “E aí eu comecei, minha carreira foi meteórica. Eu tive oportunidade de conhecer algumas pessoas no exterior, fui fazer mímica na Inglaterra, passei dois meses lá num curso intensivo de mímica, voltei, estudei mímica com o Ricardo Bandeira, que foi o primeiro mímico brasileiro, eu sou o segundo mímico na ordem cronológica”, compartilha.
Iniciada a carreira de mímica, Vicentini começou uma turnê pela Europa, América do Sul e isso virou quase 15 anos seguidos fazendo mímica, nessa continuidade.
A televisão entrou no jogo por conta da publicidade. “Eu estou entre os atores do Brasil que mais atuaram no mercado publicitário, talvez, entre os três que mais atuaram no mercado publicitário. Eu atuei em mais de 1.400 comerciais para televisão, para mais de 400 produtos”.
“Fiz o Ronald McDonald mundial para televisão e cinema. Pode consultar… dos filmes premiados em Cannes, de publicidade, dos anos 80, 90, até o Collor de Melo, eu estou praticamente em todos os anos em algum filme premiado em Cannes. Então, minha carreira foi meteórica”, afirma.
Vicentini Gomez atuou em teatros, propagandas e telenovelas
Reprodução/Vicentini Gomez
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A primeira telenovela de Vicentini foi “Kananga do Japão”. Ela foi produzida e exibida pela Rede Manchete, entre 19 de julho de 1989 e 25 de março de 1990.
“Aí eu fui me afastando da mímica, voltando para o teatro de prosa e fiz um grande sucesso. Fiz vários sucessos, mas um marcou mais minha carreira, que foi o ‘Confidências de um Espermatozoide Careca’. Fiquei 15 anos em cartaz com esse trabalho”, conta.
Outro destaque foi o “Picardias do Picadeiro”, ou as “Maluquices do Picadeiro”, porque a censura dividiu o espetáculo em dois. “Um eu tinha três cenas a mais, e eu apresentava só para adultos, 18 anos, e três cenas a menos eu apresentava para crianças de todas as idades. E eu fazia os dois no mesmo teatro, à tarde e à noite”, continua.
“Eu rodei 18 anos com esse trabalho e eu rodei 15 países com ele. Tem prêmios na Europa, em Madrid, tem prêmios aqui na Argentina, de ‘Melhor Espetáculo Latino-americano’, e cheguei aqui. Ano que vem eu estou completando 50 anos de carreira”.
Vicentini Gomez soma premiações nacionais e internacionais
Arquivo pessoal/Vicentini Gomez
Atuações
Nos palcos, Vicentini tem grandes sucessos, com destaque para o espetáculo “Confidências de um Espermatozoide Careca”, que ficou 15 anos em cartaz.
“Nesse período aí, nós temos três fenômenos. ‘Confidências de um Espermatozoide Careca’, ‘Trair e Coçar é Só Começar’, que ficou quase 30 anos em cartaz, e o ‘Mistério de Irma Vap’, com o Nanini e o Ney Latorraca, que ficou também 12 ou 13 anos em cartaz”, recorda.
Formado inicialmente em cinema, Vicentini Gomez conta que nunca planejou seguir carreira como ator. A virada aconteceu quase por acaso, quando precisou substituir um artista em um espetáculo e acabou permanecendo em cena durante toda a temporada, desempenho que lhe rendeu, inclusive, um prêmio de “Melhor Ator”.
Ao longo da trajetória, ele acumulou influências importantes, como o diretor italiano Justino Marzano, ligado à tradição europeia do teatro, e a preparadora de elenco Paula Martins, com quem trabalhou por três anos.
Com o tempo, Gomez ampliou sua atuação para a direção e passou a desenvolver projetos próprios, transitando entre teatro e cinema. Entre os trabalhos, estão produções como “Rio da Minha Terra”, filmado na barranca do Rio Paraná, em Presidente Epitácio (SP), com participação de dezenas de pessoas da região, e “Paúra”, gravado na praça central de Presidente Prudente, com um elenco que reuniu nomes conhecidos da televisão brasileira.
É justamente nesse ponto que a trajetória do artista se cruza com o Oeste Paulista. Em diferentes momentos da carreira, Vicentini Gomez transformou paisagens, histórias e personagens da região em cenário e matéria-prima para seus filmes.
Vicentini Gomez soma premiações nacionais e internacionais
Arquivo pessoal/Vicentini Gomez
Produções no Oeste Paulista
Além de circular por festivais e plataformas internacionais, Vicentini Gomez também faz questão de manter as produções ligadas ao Oeste Paulista. Em vários projetos, ele valoriza cenários da região, como fazendas centenárias e casarões, e ruas e pontos conhecidos de Presidente Prudente em parte da narrativa cinematográfica.
“Eu tenho cenas lindíssimas aqui em Epitácio. Prudente, nós temos várias fazendas da região aqui que são fazendas centenárias. Você tem cenas de agricultura, casarões, a gente tem esses cenários aqui. É uma cidade a ser explorada, né?”, afirma.
Um exemplo é o curta “Encontro Inoportuno”, gravado na cidade e exibido na plataforma internacional de curtas WeShort. Parte das filmagens ocorreu em cenários bastante reconhecíveis para os moradores, como um apartamento de Presidente Prudente, ruas da área central e até o primeiro motel da cidade.
Outro exemplo é o documentário “Cantando para as Cadeiras”, que reúne depoimentos de cantoras da cidade e também circulou por festivais internacionais.
Para o cineasta, levar essas paisagens para as telas é também uma forma de projetar a cidade além das fronteiras da região.
“Eu sempre procuro privilegiar Prudente. Acho que, aliás, eu digo isso sempre: Acho que eu sou a pessoa que mais leva Prudente para o mundo inteiro”, destaca.
Vicentini Gomez no set do filme “História e Estórias – 100 Anos de Presidente Prudente”
Reprodução/Vicentini Gomez
‘Nunca mais escrevi poemas’
Antes de consolidar a carreira no teatro e no cinema, Vicentini Gomez também viveu episódios marcantes durante o período da Ditadura Militar no Brasil. Segundo ele, um poema crítico sobre o momento político acabou chamando a atenção da repressão.
“Fui torturado pela censura por conta de um poema. Fiquei cinco horas dentro do Dops, no porão do Dops”, conta.
O artista lembra que teve a bolsa roubada por uma mulher e que, dentro dela, estava um texto que havia sido publicado em um jornal estudantil. O material acabou chegando às autoridades, que o convocaram para ir até o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo.
“Eu fiquei 5 horas vendo ‘pau de arara’ e tortura. Torturavam seis pessoas, [agressões] pesadas, pessoas desmaiavam na minha frente. O cara passava, dava um tapa na orelha e falava: ‘o próximo é você, ô, poeta’.”, recorda.
Embora não tenha sido agredido fisicamente, Vicentini afirma que a experiência deixou marcas profundas.
“Eu saí de lá e tenho certeza que eu não fui torturado porque a minha chefe na época, ela falou que ligou para o governador e pediu para não me torturarem. Mas eu fui torturado psicologicamente”, afirma.
O episódio também mudou sua relação com a escrita. “Eu acho que eu fiquei uns dois ou três anos com medo de escrever bilhete para as pessoas.”
E teve uma consequência ainda mais duradoura em sua produção artística.
“No começo achei que era uma brincadeira do cara, que um monte de gente me chamava de poeta. Nunca mais escrevi poemas na minha vida. Eu escrevia bem poema naquela época, nunca mais escrevi poema na minha vida”, diz.
Ao lembrar do período da ditadura militar, Vicentini afirma que ainda se surpreende ao ver pessoas defendendo o retorno daquele regime. “Eu fico assustado hoje vendo as pessoas pedindo a volta da ditadura, as pessoas não sabem o que é isso”.
Vicentini Gomez, natural de Presidente Prudente (SP), participou de diversas novelas e atuou em vários espetáculos teatrais
Reprodução/Vicentini Gomez
Ele lembra, também, que a censura atingiu diretamente seu trabalho no teatro.
Uma de suas peças teve 85% do texto cortado dois dias antes da estreia, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo. Sem tempo para preparar outra montagem, o grupo decidiu levar o espetáculo ao palco mesmo assim, com uma forma inusitada de protesto.
“A gente levantou uma placa, na hora que a gente balbuciava as palavras, levantava ‘corte da censura’. Aí onde não tava cortado a gente baixava a placa e falava. Ficava coisa nada com nada, sem ninguém entender”, relembra.
Para evitar um prejuízo ainda maior, ele precisou montar rapidamente outra produção para cumprir a temporada no teatro.
Para o artista, aquele período deixou marcas profundas na cultura brasileira. “Era um período crítico da história brasileira.”
A vida continua…
Aos quase 70 anos, Vicentini Gomez diz que o que o mantém ativo é justamente o encantamento com a vida e com o processo de criação. Mesmo após enfrentar um problema de saúde recente, ele afirma que segue disciplinado com os cuidados médicos e com a rotina.
“Eu falo da vida, eu falo do ser humano, eu escrevo sobre o ser humano, eu represento o ser humano, eu me divirto com as histórias trágicas do ser humano. Essa magia, esse encantamento que o ser humano tem é o que me move”, destacou.
Parte dessa disposição também vem da disciplina com a escrita. Vicentini conta que mantém uma rotina diária de criação.
“Eu escrevo todo dia 2 horas por dia. Todo dia eu sento no meu computador e escrevo. Se eu não tenho uma história em desenvolvimento, eu começo a criar uma nova história”, afirma.
Entre os trabalhos mais recentes está o livro “História sem Fim de um mundo sem pé nem cabeça”, lançado no ano passado. Uma das crônicas, segundo ele, nasceu de uma ideia anotada de madrugada.
“Eu anoto lá 3:22 da manhã, no meu celular ou no caderninho que eu tenho lá na cabeceira da cama, eu escrevi ‘uma crônica sobre um baile dos sentimentos. Como seria?’”
Para o artista, manter a mente ativa é essencial, especialmente com o passar dos anos.
“As pessoas se aposentam, vão para casa. Vai morrer. Se não tiver fazendo nada, vai morrer. O ser humano não pode ficar sem fazer nada.”
Doutor Hipóteses recebe crítica internacional e se torna referência no cenário do cinema independente
Diaulas Ullysses
Projetos futuros
Grande parte das atuações de Vicentini tinha o viés cômico. Porém, no próximo ano, o artista vai enfrentar um desafio com sua versão sobre Sacco e Vanzetti, marcando meio século de carreira.
A dupla marca a maior paralisação em prol de um ser humano já existente na face da Terra, conforme explica Vicentini ao g1. Segundo ele, nenhuma outra manifestação humana foi tão forte, tão movimentada quanto proporcionalmente, claro, no período de 1900 a 1927, quando eles foram executados nos Estados Unidos por um crime que eles não cometeram.
“O que acontecia naquele período, está acontecendo hoje nos Estados Unidos. Então é muito atual a história. 50 anos depois eles foram inocentados, depois de serem executados, foram inocentados pela Justiça americana”, continua.
“Ano que vem completa 100 anos da execução deles. Eu completo 50 anos de carreira e eu estou escrevendo essa história desde os 17 anos, lá na faculdade de Direito, que eu te falei que eu estava exibindo o filme de Sacco e Vanzetti. É esse filme que eu estava exibindo lá”, afirma.
Vicentini conta que, ao longo dos anos, juntou tudo o que existia sobre ambos em português. Ele relata ainda que durante a pandemia conseguiu fazer contato com o Museu Sacco e Vanzetti, na Itália, e conseguiu todo o processo deles.
“Eu fiz o filme em cima dos depoimentos deles, dos processos deles. São cinco personagens que eu vou fazer solo. Direção da Bárbara Bruno”, conta ao g1.
A produção “Doutor Hipóteses” também deve ganhar uma sequência, já aprovada pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), para a qual o artista está em busca de parcerias tanto em Presidente Prudente quanto em outras cidades do entorno.
“É o meu filme mais premiado. Ganhei 87 prêmios internacionais de Melhor Ator Protagonista, prêmios importantes no mundo inteiro. E eu quero fazer o Doutor Hipóteses 2. E quiçá, no futuro, uma série sobre o Doutor Hipóteses, que acho que ele tem um leque muito grande de possibilidades”, revela.
O roteiro da primeira produção também levou premiações internacionais em festivais específicos. Foram 11, segundo Vicentini.
“Isso é investimento, é planejamento. Então eu fiz um planejamento na minha história, na minha carreira, para conquistar essa história”, destaca. “Comecei a fazer investimento, eu fazia campanhas de livro, vendia 400, 500 livros, investia em festivais, investia no mercado para que o filme ganhasse uma notoriedade. E ganhou. O filme é mais reconhecido no exterior do que no Brasil”, continua.
Segundo Vicentini, o “Doutor Hipóteses 2” é uma consequência desse investimento e notoriedade conquistada. O enredo deve tratar sobre feminicídio e relações tóxicas.
“É ele e mais uns bonecos que o tal Doutor Hipóteses criou para servi-lo durante a pandemia. Só que a mente dele é tão conturbada que a mente dele atrapalha tanto que os bonecos começam a se rebelar contra ele. E quem são os bonecos? É o alter ego dele. É tudo aquilo que ele não quer ser e os bonecos passam a ser para contrariá-lo”.
Então, entra a figura feminina. São mulheres que ele quer dominar e elas são rebeldes. “Ele chama de anjos rebeldes, que são 13 mulheres que, no filme original, elas estão penduradas no teto só com a roupa de baixo. O corpo e a cabeça não têm. Aí a gente descobre por que o corpo e a cabeça não têm, porque elas estão dentro da caixa de Pandora, que ele chama. Então, uma história complexa, mas divertida, é engraçada, mas ao mesmo tempo ela é tragicômica”, adianta o cineasta.
Doutor Hipóteses, de Vicentini Gomez, é reconhecido e premiado internacionalmente
Diaulas Ullysses
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