Published
3 horas agoon
By

Prefeitura de Osasco descarta centenas de livros de biblioteca pública e gera indignação
Na semana mundial do livro, a prefeitura de Osasco descartou parte do acervo da Biblioteca Pública Monteiro Lobato, na Grande São Paulo, provocando revolta entre moradores, escritores e professores da cidade. Imagens mostram milhares de exemplares jogados em caçambas de lixo. A gestão municipal afirmou que os livros estavam contaminados por fungos e mofo.
A biblioteca está fechada desde 2020, quando as atividades foram interrompidas por causa da pandemia de Covid-19. Desde então, o espaço que já foi referência de leitura, estudo e atividades culturais permanece sem acesso ao público e em estado de abandono.
Segundo moradores, após o fechamento, livros, jornais e documentos que registram a memória da cidade foram armazenados em uma sala e ficaram fechados por anos, sem manutenção adequada. Entre os materiais descartados nesta sexta-feira (24) estavam obras de autores locais, livros de poesia e coleções antigas de jornais.
Livros de biblioteca pública de Osasco foram descartados em caçamba de lixo
Reprodução/TV Globo
“Essa biblioteca não teve nenhuma compra de livros durante toda a sua existência. Todos os livros que estão aqui, eles foram doados. Tem muita história que foi guardada aqui dos próprios osasquenses, livros de poesia, um acervo gigantesco que foi jogado fora, os jornais da cidade antigos também, é um acervo riquíssimo”, afirma a professora Juliana Gomes Curvelo.
De acordo com relatos de moradores, uma reforma teve início em setembro de 2023, com promessa de entrega em fevereiro de 2024. No entanto, a obra não foi concluída, e o prédio segue fechado, sem explicações públicas da prefeitura.
Nesta semana, moradores flagraram a retirada do material da biblioteca. “Eles estavam com uma caçamba já lotada de livros, uma outra caçamba com um pouco, e um monte de livro jogado pelo chão”, relata o sociólogo Roque Aparecido da Silva, que presenciou a cena. Ele questiona a justificativa apresentada pela prefeitura. “Os livros estavam realmente com fungos? Deu pra ver? Olha, eu tenho certeza que poderia ser que alguns estivessem, mas a maioria com certeza não”.
Moradores também afirmam que um novo contrato de reforma foi firmado, mesmo com a obra anterior ainda inconclusa. O documento, assinado em março deste ano, prevê mais de R$ 1,5 milhão em serviços de manutenção e adequação do espaço. Entre as melhorias previstas estão reforma da cobertura, parte elétrica, pintura, novos forros, adequação de acessibilidade e a criação de um auditório. O prazo de execução é de até 120 dias, podendo ser prorrogado. No local, no entanto, não há placas ou informações sobre o andamento dos trabalhos.
Biblioteca Monteiro Lobato, em Osasco, fica com estantes vazias após descarte de livros pela prefeitura
Reprodução/TV Globo
Em 2023, o Bom Dia São Paulo já havia mostrado a situação de abandono do prédio e do acervo, com livros guardados em locais com infiltração, paredes danificadas e sinais de falta de manutenção.
Criada na década de 1960, a Biblioteca Pública Monteiro Lobato chegou a receber cerca de duas mil pessoas por mês antes de ser fechada. Ao longo dos anos, funcionou como espaço de leitura, realização de eventos culturais, cursos e até um centro de inclusão digital. Desde 2022, moradores e entidades se organizam em mobilizações pela reabertura.
Alguns livros foram retirados das caçambas por moradores. “Eles não estão num estado de deteriozação, pode até ter um cheiro, mas eles não estão num estágio de deteriorização. Eu acredito que a gente tem que pensar agora como reativar uma biblioteca que não tem mais o seu acervo”, diz Juliana Curvelo.
Para o escritor e professor Ricardo Aparecido Dias, que tinha exemplares de suas obras na biblioteca, a perda é irreversível. “Lá havia um local com várias estantes com livros de autores osasquenses. Muitos desses escritores, poetas e pesquisadores já faleceram, não há como reconstituir esse acervo. Para nós que somos osasquenses, é uma importância inestimável. Livro não fica ultrapassado, livro está sempre vivo”, disse ele.
Em nota, a prefeitura de Osasco informou que seguiu orientação jurídica para realizar o descarte do material e que os itens eliminados serão repostos. A administração não informou se houve avaliação de especialistas em conservação de patrimônio histórico ou de profissionais da área da saúde para atestar a contaminação por fungos e mofo. A nota também não traz previsão para a reabertura da biblioteca.