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A educação baseada em evidências científicas é, para Carlos Nadalim, ex-secretário de Alfabetização no governo Bolsonaro e mestre em Educação, o principal antídoto contra ideologias pedagógicas. Segundo ele, o chamado “romantismo pedagógico” não é um problema restrito à esquerda e também aparece em setores conservadores, especialmente quando práticas individuais são tratadas como solução universal.
Em uma entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, Nadalim, que voltou a assumir suas funções no Colégio Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, em Londrina, abordou outros temas além do debate ideológico. O professor comentou sobre as fragilidades nos sistemas de avaliação, os desafios na formação de professores e deu dicas de materiais disponíveis na internet para que os pais possam incentivar a leitura na infância.
“Eu tenho as minhas convicções políticas e ideológicas, mas, no tocante ao ensino da leitura, sigo as evidências científicas. Vejo romantismos pedagógicos também no meio conservador. Pessoas que fazem uma experiência educacional em casa e vão para a internet sugerir que aquilo seja replicado”, afirma.
Nadalim explica que a formulação de políticas públicas educacionais exige estudos robustos, capazes de demonstrar impactos positivos com resultados mensuráveis e concretos. Relatos pessoais ou experiências isoladas, segundo ele, não cumprem esse papel e são classificados como evidência anedótica, justamente por não se apoiarem em pesquisas consolidadas.
“Há muitas variáveis envolvidas. Às vezes, uma experiência foi bem-sucedida com o filho, mas trata-se de uma família de classe média-alta. Logo, ela já largou na frente. O resultado pode não ser uma consequência direta da instrução aplicada, mas de fatores como renda da família, quantidade de livros infantis em casa ou escolaridade dos pais. No meio conservador, vejo variáveis fracas sendo discutidas como indicadores educacionais fortes”, complementa.
Conhecido por defender a alfabetização baseada em evidências científicas, especialmente àquela realizada em diferente etapas, que inclui a abordagem fônica, Nadalim afirma que sua posição não é pessoal nem recente. Segundo ele, trata-se de uma agenda construída há décadas por pesquisadores de diferentes países e orientações políticas.
“Sei que eu sou conhecido como um defensor da alfabetização baseada em evidências da abordagem fônica. Mas eu aprendi com muita gente. Essa bandeira não é de um único homem, mas de várias pessoas que querem sim o bem das nossas crianças, alfabetizando-as da melhor maneira. Essa é uma pauta defendida por vários pesquisadores há décadas”, afirma.
Na avaliação do ex-secretário, a principal resistência à adoção de práticas fundamentadas em dados científicos não nasce no campo acadêmico, mas no debate político. Segundo ele, a alfabetização baseada em evidências acaba sendo rotulada como um “método conservador” — uma classificação que, afirma, não existe entre pesquisadores, mas ganha espaço no discurso político.
O governo Lula anunciou recentemente que 66% das crianças brasileiras estão alfabetizadas no final do 2º ano do ensino fundamental. Diante das críticas de pesquisadores às mudanças na métrica e à falta de transparência na divulgação dos dados, Nadalim avalia que o problema central está na ausência de padrões internacionais de avaliação.
“Por que os instrumentos de avaliação não são definitivamente alinhados aos instrumentos internacionais? Esse é o ponto mais importante. Mais do que olhar para o ranking com os outros países, é preciso coletar os dados e ajustar políticas públicas, currículos, a formação de professores”, aponta.
Entre as principais avaliações internacionais de leitura, Nadalim cita o PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study), aderido pelo Brasil durante sua gestão. A prova mede a proficiência leitora de alunos do 4º ano do ensino fundamental e exige habilidades mais complexas, como relacionar informações do texto a conhecimentos prévios e realizar uma leitura crítica.
Nessa etapa, as crianças devem estar caminhando para a consolidação da leitura, condição necessária para que posteriormente, a partir do 6º ano do fundamental II, possam aplicar a habilidade para aprender outras disciplinas.
“Aprender a ler para ler para aprender”, resume. “A pergunta é se esses 66% terão êxito na próxima edição do PIRLS. O PIRLS não afere o ciclo de alfabetização, mas a consolidação da aprendizagem da leitura. Ainda assim, ele permite que gestores identifiquem o que precisa ser feito no início da escolarização para que os alunos cheguem preparados”, acrescenta.
Outro ponto central destacado por Nadalim é a formação de professores. Para ele, a melhoria dos resultados educacionais passa necessariamente por uma revisão dos cursos de pedagogia.
“É preciso reformular os currículos dos cursos de pedagogia e introduzir o que a ciência já sabe: como o cérebro processa a linguagem oral e escrita, de que maneira as crianças aprendem, o que é memória de trabalho. Há muitos fatores que vão além da questão de alfabetização para que a aprendizagem aconteça”, critica.
Enquanto essas mudanças não ocorrem, o ex-secretário afirma que os municípios têm recorrido à formação continuada para ajudar os docentes a superarem as defasagens. “Os professores estão sedentos por essas estratégias. Isso aumenta a autoestima do professor, o que tem uma relação, inclusive, com a autoridade que ele terá em sala de aula. Ele começa a aplicar o que aprendeu, vê que dá certo e valoriza o próprio trabalho”, diz.
Durante sua gestão à frente da Secretaria Nacional de Alfabetização, o Ministério da Educação desenvolveu diversos materiais voltados a gestores educacionais, professores e famílias. Embora a secretaria tenha sido extinta no atual governo, Nadalim afirma que muitos desses conteúdos ainda estão disponíveis gratuitamente na internet.
Pais podem acessar, por exemplo, uma playlists com o som das letras, curso de literacia familiar, fábulas e cantigas narradas por Toquinho, além de orientações para a escolha de livros por faixa etária. Já gestores e professores têm acesso ao ABC na Prática, que reúne tanto material teórico quanto prático para desenvolver consciência fonológica e fonêmica, além de outras ações do programa Tempo de Aprender.