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A verdadeira história por trás dos misteriosos samurais japoneses
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4 minutos agoon
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A verdadeira história dos samurais é mais complexa e surpreendente do que imaginamos
Divulgação/Museu Britânico via BBC
O sólido legado dos samurais é um fenômeno singular na história cultural da humanidade.
Nenhum outro grupo social da era medieval foi tão celebrado ou mitificado na cultura popular, de forma tão persistente, desde as impressões ukiyo-e (um estilo de xilogravura muito popular no Japão entre os séculos 17 e 19) até os videogames, filmes e programas de TV contemporâneos.
A fama sempre traz consigo a mitificação e isso também ocorreu com os samurais.
Será que esses fabulosos cavaleiros do passado eram realmente tão valentes, leais, altruístas, disciplinados e inequivocamente japoneses como pensamos?
A resposta é não, pelo menos segundo a nova exposição do Museu Britânico intitulada “Samurai”. Sua proposta é desmistificar a fantasia em torno desses guerreiros misteriosos e, em grande parte, pouco conhecidos — e revelar sua verdadeira história, muito mais fascinante.
Quem eram os samurais e como eles surgiram?
“Eles não eram um grupo unitário de pessoas que permaneceu o mesmo ao longo da História”, explica a curadora da exposição, Rosina Buckland.
“Acho que a percepção no Ocidente é que os samurais são guerreiros — o que certamente é verdade. Foi assim que eles surgiram e atingiram posições de poder na Idade Média.”
“Mas esta é apenas parte da história”, segundo ela.
Armadura em exibição no Museu Britânico tem uma frente pontiaguda e lados em ângulo, para desviar as balas dos mosquetes
Divulgação/Museu Britânico via BBC
As origens dos samurais remontam ao século 10, quando eles foram inicialmente recrutados como mercenários para as cortes imperiais. Eles evoluíram gradualmente até se tornarem aristocratas rurais.
Mas os samurais não eram galantes soldados que seguiam códigos de honra da cavalaria, como as pessoas passaram a acreditar posteriormente.
Durante as batalhas, eles costumavam usar táticas oportunistas, como emboscadas e trapaças. Muitas vezes, eles eram mais motivados pela recompensa, em terras e status, do que pelo senso de honra ou dever altruísta.
Esta visão flexível fazia com que eles também adotassem influências multiculturais e tecnologia estrangeira, o que é outra faceta surpreendente da identidade dos samurais.
A couraça da magnífica armadura dos samurais em exibição no Museu Britânico foi baseada em um desenho português. Ele tem a parte da frente pontiaguda e lados em ângulo, para desviar as balas de mosquetes.
Estas características só passaram a ser necessárias no Japão depois que o país começou a importar armas de fogo da Europa, em 1543.
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‘Cultura é poder’
Os samurais conquistaram o poder político explorando o caos gerado pelas disputas sobre a sucessão imperial.
Em 1185, um clã controlador (os Minamoto) assumiu e estabeleceu um novo governo, paralelo à corte imperial. E, ao longo dos anos, houve ascensão e queda das dinastias dos senhores da guerra, envolvendo diversas batalhas entre os líderes dos clãs.
Mas, como indica Buckland, “mesmo naqueles estágios antigos, a cultura é extremamente importante. A cultura é poder.”
Os líderes militares eram chamados de Xóguns. Eles perceberam que não poderiam exercer a autoridade com sucesso usando a perspectiva e a mentalidade dos senhores da guerra tribais.
Por isso, eles encontraram formas de suplementar seu poderio militar com os modos de influência política mais sutis e sofisticados da sociedade cortesã.
Sua estratégia diplomática era baseada na filosofia chinesa, principalmente nas ideias de Confúcio (c.551 a.C.-479 a.C.).
“No pensamento neoconfuciano, você precisa ter equilíbrio entre o poderio militar e as habilidades culturais”, explica Buckland.
Esta ramificação aumentou o investimento em soft power (poder de influência) nas câmaras da corte.
Os samurais têm origem no século 10 e suas lendas e mitologia permanecem vivas há séculos
Divulgação/Museu Britânico via BBC
Além de serem adeptos da arte da guerra, os samurais se familiarizaram com as artes refinadas da pintura, poesia, música, teatro e da cerimônia do chá.
Um dos objetos mais belos e inesperados da exposição é um leque com ilustrações de orquídeas, pintado por um artista samurai do século 19.
“Xógum: A gloriosa saga do Japão”, a série da Disney/FX cuja segunda temporada se encontra atualmente em fase de produção, fornece um relato ficcional de um dos pontos mais importantes da história dos samurais.
No século 16, o líder de um dos clãs, Tokugawa Ieyasu (representado na série pelo personagem Yoshii Toranaga), formou um governo tão bem sucedido que durou 250 anos. Com isso, deixou de haver grandes batalhas no Japão e os samurais passaram a assumir novas funções.
Em vez de comandarem no campo de batalha, eles agora administravam o Estado.
“Eles são os ministros, legisladores e coletores de impostos”, segundo Buckland. Eles assumiram empregos que atravessavam toda a corte, “chegando a ser guardas dos portões dos castelos”.
Mulheres samurais
Durante o novo regime, conhecido como Xogunato de Tokugawa, as famílias dos Daimyos (os lordes regionais japoneses) foram levadas a viver na sua base de poder, a cidade de Edo (atual Tóquio).
“Eles são mantidos meio que reféns, próximos do Xógum, de forma que ele conseguisse manter a vigilância sobre eles”, explica Buckland. Ou seja, era uma forma de exigir obediência e lealdade dos samurais.
“Você não pode conspirar nas diferentes regiões se a sua esposa e seu herdeiro estiverem em Edo, pois você poderia perder o acesso a eles ou eles poderiam ser executados.”
O resultado foi o aumento da importância do papel das mulheres nos círculos samurais, segundo Buckland.
“As mulheres administram a casa enquanto seus maridos ficam ausentes com frequência”, segundo ela. “E, se você for um samurai de alta patente, poderá ter 40 ou 50 pessoas na sua casa. É como administrar um pequeno negócio.”
Além de supervisionar os funcionários e os comerciantes, elas também gerenciavam a educação das crianças e recebiam convidados com os rituais e procedimentos necessários.
Diversos objetos da exposição do Museu Britânico contam a história de vida dessas mulheres samurais, como vestidos, manuais de etiqueta e acessórios.
Objetos como este opulento traje de bombeiro feminino contam a história de vida das mulheres samurais
John Bigelow Taylor/Coleção John C. Weber via BBC
Durante o Xogunato de Tokugawa, peças, poemas e obras de arte representavam cada vez mais os lendários samurais do passado, destacando seu heroísmo, valor e lealdade. As virtudes mais divulgadas eram as dos homens, mas alguns também falavam das mulheres guerreiras samurais.
Uma impressão ukiyo-e de 1852 mostra uma dessas mulheres: Tomoe Gozen, esposa de um general do clã Minamoto.
Ela mostra Gozen na batalha de Awazu, em 1184. Conta-se que ela encontrou o temido guerreiro Hachirō Morishige, o derrubou do seu cavalo e arrancou sua cabeça com as próprias mãos.
Queda e renascimento
Durante a era Meiji (1868-1912), o Japão abriu suas fronteiras para o comércio internacional e começou a modernizar sua indústria e suas instituições sociais e militares.
Uma das mudanças foi a abolição oficial da classe dos samurais, em 1869. Foi outro ponto fundamental da sua história.
“Naquele momento, a imagem do samurai se transforma em pura ficção”, segundo Buckland. “Ele é rejeitado por cerca de 25 anos, mas a nostalgia toma forma e sua imagem é revisitada.”
Fora do Japão, uma nova fascinação pelos samurais levou à popularidade de livros como “Bushido: Alma de samurai” (Ed. Tahyu, 2005), escrito pela quaker japonesa Nitobe Inazō, moradora da Califórnia, nos Estados Unidos.
“O livro foi muito lido”, conta Buckland. “O presidente americano Theodore Roosevelt [1858-1919] comprou diversas cópias para presentear os seus amigos.”
“Ele foi usado para explicar o sucesso do Japão, que havia vencido recentemente a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-1895) e, em seguida, derrotou a Rússia.”
No Japão, ao longo do século 20, uma imagem distorcida dos samurais foi manipulada com diferentes propósitos, como propaganda militar e símbolo nacional.
Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os contos dos samurais renasceram novamente — desta vez, como tema de filmes.
O mais famoso dos diretores responsáveis por estas obras foi Akira Kurosawa (1910-1998). Seu talento para contar histórias de forma visual e lidar com sequências de ação influenciou decisivamente o cinema americano.
Seu filme “Os sete samurais” (1954) foi reinventado como “Sete homens e um destino” (1960 e 2016), enquanto “Yojimbo: O guarda-costas” (1961) inspirou “Por um punhado de dólares” (1964).
Em 2018, uma enquete realizada pela BBC elegeu “Os sete samurais” como o melhor filme em língua não inglesa de todos os tempos.
Posteriormente, Hollywood chegou a produzir seus próprios filmes sobre o tema, como “O último samurai” (2003) e “47 ronins” (2013).
E a popularidade de tudo o que se refere aos samurais foi reafirmada mais recentemente pelo sucesso da série “Xógum: A gloriosa saga do Japão, baseada em um romance de 1975 do escritor inglês James Clavell (1921-1994).
Muitos dos figurinos do filme original de ‘Star wars/Guerra nas estrelas’, incluindo o de Darth Vader, foram inspirados nas armaduras dos samurais.
Divulgação/Lucasfilm via BBC
A exposição mostra que o filme original de “Star Wars, uma nova esperança” (1977), foi inspirado em “A fortaleza escondida” (1958), de Kurosawa.
E muitos dos figurinos do filme sofreram influência das armaduras dos samurais. O mais simbólico é o de Darth Vader, em exibição na sala final da exposição.
A verdadeira história dos samurais é de evolução e adaptação, desde suas origens como mercenários medievais até sua posição posterior de burocratas gentrificados e patronos das artes.
Mas sua lenda comprovou ser uma fonte permanente de intrigas e fascínio, mantida viva ao longo das décadas nas artes, no cinema, nos videogames e na literatura.
E, em relação à exposição no Museu Britânico, Buckland espera “que as pessoas se inspirem para criar novas representações dos samurais”.
A exposição Samurai está em cartaz no Museu Britânico, em Londres, até o dia 4 de maio.
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